A Guerra no Irão – que começou com o ataque norte-americano e israelita contra o Irão, piorou com o consequente bloqueio do Estreito de Ormuz e culminou numa crise energética sem precedentes – tem sido alvo de extensa e detalhada análise, sobretudo quanto à atuação de Washington (e Donald Trump) e de Teerão. Pouco se tem analisado a atuação conjunta da União Europeia e isso, por si só, já diz imenso.
Por um lado, assistimos a um suceder de posições unilaterais, erráticas , contraditórias e contraproducentes dos Estados Unidos – que parecem ter iniciado uma guerra sem um plano claro, sem objetivos bem definidos e sem acautelarem uma porta de saída para o conflito. Do outro lado, temos um regime iraniano extremista, cruel e letal para com os cidadãos do seu país que discordam política e religiosamente da via estatal. Um regime que patrocina grupos e atos terroristas na região e noutras partes do mundo. Um regime que, agora – sob ameaça de aniquilação civilizacional (sim, um presidente dos EUA ameaçou exterminar um povo inteiro…) –, gere e, provavelmente, pretende perpetuar um sistema em que mantém refém o Estreito de Ormuz, cobrando uma portagem de até dois milhões de dólares por cada navio, megapetroleiro ou não, que por ali passe.

Aqui estava uma oportunidade de ouro para a Europa, o Velho Continente, falar a uma só voz, como o adulto na sala (que quase nunca é). Vinte e sete nações, das mais desenvolvidas do mundo, economicamente médias no contexto mundial, mas enormes se forem consideradas em conjunto, pelos mais de 450 milhões de cidadãos, eleitores e consumidores. Como a UE e o seu corpo executivo, a Comissão, não fala militarmente, a resposta conjunta teria de ser em termos económicos, sociais e políticos.
O que vimos foi uma repetição do que sucedeu nas primeiras fases da covid, em 2020, e na crise energética que depois se levantou: uma resposta fragmentada dos Estados-membros, com medidas avulsas e, obviamente, de caráter nacional.
Vinte e dois dos 27 Estados-membros já anunciaram mais de 120 medidas, cujo custo combinado ascende a nove mil milhões de euros. Vão das medidas fiscais (reduções dos impostos sobre o consumo ou dos impostos aplicados diretamente sobre os combustíveis, como foi o caso de Portugal), até medidas de fixação de tetos nos preços da gasolina e do diesel ou imposição de limites diários ao consumo.
Uma análise do Instituto Jacques Delors aponta uma evidência , que nem sequer é de agora. “Os governos [europeus] estão a favorecer um alívio imediato e visível para os seus cidadãos , apesar dos riscos de longo prazo: a fixação de preços máximos elimina os sinais que os mercados dão sobre a procura, o que cria condições para escassez”. Este padrão de ‘curto-prazismo’ dispendioso não é novo – na anterior crise, entre 2022 e 2024, custou 2,2% do PIB europeu.
Pior, esta postura individualista a que assistimos atualmente, “assenta na assunção de que haverá uma rápida resolução para o conflito”. Ora, isso é tudo menos certo. Especialmente porque ambas as partes que chegaram a um “cessar-fogo” – negociado com a ajuda do Paquistão – estão mais focadas na parte do fogo do que na parte do cessar. Ou seja, a Europa está, mais uma vez, não só à mercê dos acontecimentos, como à espera de, novamente, não ter de fazer nada (sobretudo em conjunto). À espera que tudo se resolva com o trabalho dos outros e que tudo volte ao “business as usual”.
============2024 – OPINIÃO – Corpo Texto CAP_0030 (5702349)============
Um olho em Ormuz e outro no curto prazo 2026 IUSTITIA.BG – Investigations 2009-2025 2026-04-10 03:36:23
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