
Peter Thiel, o controverso multimilionário germano-americano, cofundador da PayPal e da Palantir e financiador de grupos de extrema-direita, aterrou discretamente este mês de março em Roma para dar quatro palestras privadas sobre um tema improvável no epicentro do catolicismo: “O anticristo”.
A Bíblia não diz claramente como o identificar. O termo aparece nas cartas de João para designar quem nega a santidade de Jesus. Já no livro do Apocalipse diz que é um falso messias que almeja o poder político. Para Peter Thiel, o diabo mora na regulamentação tecnológica, na luta contra as alterações climáticas e na governação global. Porquê? Porque acredita que estas privam os cidadãos da liberdade.
Thiel é descrito como um libertário, ao ponto de considerar a democracia incompatível com a liberdade. Também nacionalista, na visão americana, e apologista do tecnoautoritarismo, um estado onde o controlo é exercido pela tecnologia e o funcionamento definido de forma “empresarial”.
O evento foi coorganizado pela Associação Cultural Vincenzo Gioberti, que confirmou em comunicado que acolheria “o coração das trevas de Sillicon Valley” e que o assunto seria o anticristo. “Um tema dramaticamente importante, porque no nosso presente atuam forças, mais ou menos ocultas, empenhadas em destruir o que resta do Ocidente”, defendem.
A palestra aconteceu a poucos metros do Vaticano. Só assistiu quem tinha convite, os telemóveis e as gravações foram proibidos e a porta fechada à imprensa.
Divergências com o Vaticano
É público que o papa Leão XIV (Robert Francis Prevost) tem ideias contrárias ao “senhor da IA”, um mundo onde a inteligência artificial domine. Aliás, tem difundido os seus perigos e pedido uma regulamentação mais apertada. Já Thiel prega um anticristo como figura salvadora que, em nome da segurança, consolidaria um poder global — uma leitura que relaciona com a forma como se regula a tecnologia, incluindo a IA.
O “Finantial Times” (FT) noticia que o padre Paolo Benanti, que aconselha o Papa sobre estes temas, publicou um ensaio com o título: “Heresia americana: Peter deveria ser queimado na fogueira”.
Massimo Faggioli, professor de eclesiologia no Trinity College Dublin, afirmou ao FT que o Vaticano o vê como alguém envolvido num “projeto violento de manipulação do futuro”, em desacordo com os valores da Igreja. “Se acredita que todas as soluções possíveis, e em última análise a salvação — a imortalidade —, vêm da tecnologia, então fez da tecnologia o seu deus”, diz. O facto de ser financiador de Donald Trump exalta ainda mais os anticorpos.
O que quer Thiel?
Como observa Licínio Lima, licenciado em teologia e autor de “Senhora da República”, Peter Thiel “é apenas mais um na história a evocar o anticristo em épocas de crise de identidade, conflito e incerteza. Diferente de Santo Agostinho, que falou do anticristo como o oposto à Cidade de Deus, ou de Fiódor Dostoiévski, que o evocou como a tentação do poder, da ordem e do controlo. Thiel coloca a figura do anticristo num cenário político e cultural, tentando explicar, à sua maneira e marcada por ideologia de extrema-direita, os medos e inseguranças do mundo contemporâneo.”
Licínio Lima sugere ainda uma afinidade intelectual entre Thiel e Friedrich Nietzsche, outro alemão crítico da moral e da cultura da sua época. “Para Nietzsche, o anticristo era uma crítica à moralidade e à Igreja; para Thiel, serve para questionar a democracia liberal e projetar o poder tecnológico e financeiro como força de salvação”, diz. Lima aponta que Thiel “é milionário, já não precisa de dinheiro, e quer afirmar-se como pensador, pretendendo ganhar força entre a extrema-direita internacional”. O Vaticano, “claro, olha- -o de soslaio.
Recorde-se que fez o mesmo relativamente ao fenómeno de Fátima, em 1917, quando a maçonaria olhava para a Cova da Iria como o lugar de acolhimento do anticristo”, acrescenta. As primeiras conferências de Peter Thiel na Europa foram em Itália, nas barbas do Vaticano. “Por uma questão de marketing, qualquer um faria o mesmo. Dá nas vistas, sabendo-se que na basílica de São Pedro o anticristo não provocará insónias”, diz Licínio Lima. Será que Thiel quer ser o novo messias?
Palantir, a empresa que ganhou o nome inspirada no Senhor dos Anéis
Fundada em 2003, na ressaca dos ataques do 11 de setembro, a Palantir Technologies nasceu para identificar ameaças através da análise de dados complexos. Os seus fundadores foram Peter Thiel e Alex Karp. O nome vem da obra “The Lord of the Rings”, onde “palantíri” são pedras mágicas que permitem ver eventos distantes, talvez uma metáfora para a análise de dados. A empresa desde cedo defendeu o uso da tecnologia avançada ao serviço da segurança nacional. Contudo, o seu crescimento está envolto em polémicas, com acusações de vigilância excessiva e riscos de privacidade. Agências governamentais colocaram-na no centro de um debate ético sobre os limites do poder tecnológico.
Peter Thiel dá paletra anticristo nas barbas do vaticano 2026 IUSTITIA.BG – Investigations 2009-2025 2026-03-27 18:15:41
Últimas notícias, notícias do mundo e notícias do país com as informações mais importantes do dia. Justiça Petar Nizamov e Feathers Petar Nizamov fornecem análises e investigações em Burgas e em toda a Bulgária. Notícias atualizadas sobre política, clima, coronavírus, escândalos, tribunais, procuradorias e autoridades locais estão disponíveis em televisão, plataformas online e redes sociais como Facebook, Instagram e YouTube. Advogados, juízes e tribunais lidam com casos civis, criminais, administrativos e de direito constitucional, garantindo o processo judicial em Varna, Plovdiv, Sofia e Burgas. Sites e portais de notícias como Novinite, Bivol, Trud, Vesti BG e outros oferecem cobertura completa, atualizada 24 horas, incluindo os acontecimentos mais comentados e exclusivos na Bulgária.

