De repente, a literacia financeira entra no jargão político.
Os defensores das políticas neoliberais parecem preocupados com a capacidade que as pessoas deveriam ter para gerirem economicamente o seu dia a dia e se precaverem em decisões financeiras de maior alcance.
Tudo isto, embrulhado na retórica devida, parece uma genuína preocupação com a capacidade que o povo tem de se defender do logro financeiro e da desgraça do endividamento.
Isso é apenas a aparência. Na verdade, trata-se, sim, de um embuste.
Um embuste destinado a fingir preocupação com as pessoas quando, na verdade, o que interessa é o negócio. Um embuste também porque, no disfarce da retórica que é utilizada, está a contradição com as políticas que vão sendo feitas e que se querem ver aprofundadas.
Em vez da preocupação com as pessoas, o que está por detrás do discurso da literacia financeira é o negócio do sector financeiro. Na essência, a literacia financeira é, nada mais, nada menos do que um contributo para o aprofundamento da financeirização da economia e para disfarçar a natureza ruinosa que as políticas neoliberais têm na vida de quem trabalha.
As políticas neoliberais empobrecem os trabalhadores e ainda lhes dizem que a culpa é deles, que é por ignorância e falta de literacia financeira que são pobres ou não saem da pobreza.
Os defensores das políticas neoliberais impõem a contenção dos salários e a perda do seu valor real face ao aumento dos preços, não querem travar o aumento do custo de vida, apresentam o crédito como solução para a falta de salário. Depois, dizem-nos que é preciso literacia financeira para que as pessoas estejam informadas sobre os riscos do endividamento e as precauções que têm de ter.
Os defensores das políticas neoliberais endeusam as criptomoedas emitidas sem controlo dos bancos centrais e normalizam as aventuras financeiras feitas por essa via. Depois, vêm dizer que é preciso alertar os consumidores para os riscos das aventuras financeiras especulativas.
Os defensores das políticas neoliberais promovem a financeirização da economia e, com o pretexto da liberdade de circulação de capitais, liberalizam mercados, desregulam o setor financeiro, põem em risco pequenas poupanças e recursos financeiros para pagar pensões. Depois vêm dizer que é preciso que os trabalhadores e os aforradores estejam esclarecidos e informados , e capazes de se defender de vendedores de banha da cobra quando fazem investimentos financeiros.
A forma como a discussão sobre a literacia financeira está a ser apresentada e proposta ao nível da União Europeia confirma isso mesmo.
A UE aparece como espaço e instrumento dedicado a todo este embuste que visa iludir responsabilidades e responsáveis pelas políticas que prejudicam os povos.
Os povos precisam, sim, de literacia financeira. Mas é para correr com as políticas neoliberais.
Escreve sem aplicação do novo Acordo Ortográfico
Literacia financeira: um embuste neoliberal 2026 IUSTITIA.BG – Investigations 2009-2025 2026-05-04 23:39:00
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