
Tudo parece estar por fazer quando cerca de dois milhões de pessoas se encontram em risco de pobreza ou de exclusão social no país, das quais 322 mil são crianças e adolescentes. No entanto, apesar de tudo, é diferente um país ver este indicador subir, como é o caso de França, por exemplo, ou apresentar melhorias, como acontece com a maioria na UE, incluindo Portugal.
Os dados mais recentes do INE — inquérito de 2025 sobre os rendimentos de 2024 — mostram que 18,6% da população ainda se encontrava nestas circunstâncias. Uma redução face aos 19,7% do ano anterior. Só que uma comparação mais alargada permite concluir que a descida atingiu 6,3 p.p. desde 2016 (24,9%) — menos 582 mil pessoas num período em que a população cresceu 244 mil.
Números do Eurostat atualizados na semana passada mostram ainda que só três países da UE tiveram maior redução em 10 anos: Roménia (-18,6 p.p.), Bulgária (-12 p.p.) e Hungria (-9,1 p.p.). Os primeiros dois, que tinham em 2016 uma situação particularmente grave, acima de 40%, continuam na cauda da Europa, mas o diferencial é bem menor — e a Roménia (que evoluiu de 46% para 27,4%) até ultrapassou a Grécia (apesar de também ter descido).
Em que lugar está, então, Portugal na UE? Tem o 11.º valor mais baixo (ou menos alto, se preferirmos), ex aequo com Áustria e Suécia. Os 18,6% destes três países estão abaixo da média europeia (20,9%). Na última década, Portugal nunca esteve tão bem colocado no ranking europeu. Em 2023 e 2024, foi 15.º, o que era, até então, a melhor posição desde 2016.
A Chéquia (11,5%) tem, de longe, o valor mais baixo, seguida de Polónia, Eslovénia e Países Baixos (todos na casa dos 15%). No sul da Europa, a Grécia está no 26.º lugar, Espanha em 23.º (25,7%), Itália é 21.º, França 18.º e Croácia 17.º. Chipre está em 7.º.

Também a taxa de risco de pobreza monetária (mais restrita, sem contar com os níveis de acesso a bens essenciais e o afastamento face ao mercado de trabalho) tem conhecido melhorias, com Portugal a reduzir a incidência de 16,6% para 15,4% num ano — o valor mais baixo desde a década de 90, como já apontou Carlos Farinha Rodrigues, especialista em pobreza, num estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos.
Portugal, neste caso, fica praticamente a meio da tabela europeia, na 13.ª posição, o que compara com 16.º no ano anterior. Chegou a ser 18.º em 2016, segundo os dados do Eurostat.
Como é que se justifica, então, esta trajetória de Portugal? Carlos Farinha Rodrigues diz-nos que a evolução do emprego tem sido importante, mas não é a única razão: apesar de Portugal ser um dos países europeus em que as prestações sociais menos contribuem para mitigar a pobreza, houve “algum efeito positivo”, por exemplo, na alteração ao Complemento Solidário de Idosos; há ainda uma “maior consciência” no país de que “o problema da pobreza não é dos pobres, mas de todos”; e o nível de qualificações tem aumentado — há já 2 milhões de licenciados a trabalhar em Portugal —, fator que é “determinante”.
A proporção de trabalhadores qualificados em situação de pobreza está, no entanto, a motivar preocupação, porque “anda à volta de 5%”. E está longe de ser a única, avisa o professor do ISEG: a incidência da pobreza nas crianças, nas famílias monoparentais e numerosas e entre a população empregada (neste caso, 8,6%) merecem atenção.
Há ainda “novas preocupações”, porque aqueles indicadores “contam apenas parte da história”. Carlos Farinha Rodrigues refere-se, nomeadamente, ao acesso à habitação, que é “fulcral para a vida das pessoas”. Há casos que escapam aos indicadores de pobreza: os rendimentos até podem estar acima do limiar, mas as subidas de rendas ou de prestações da casa são incomportáveis.
O risco de pobreza após deduzir os custos com a habitação (outro indicador do Eurostat) confirma esse cenário mais sombrio: a pobreza abrange, de súbito, 26,8%, em vez de 15,4%. Está, porém, a um nível historicamente baixo: desde 2004, apenas em dois anos foi inferior (2020 e 2022). E como o acesso à habitação é um problema abrangente na UE, Portugal mantém o 11.º lugar.
A Eslováquia tem o melhor desempenho (22,9%) e a Grécia o pior (41,8%), numa tabela com dados surpreendentes: a Dinamarca tem a segunda pior taxa de pobreza após as despesas com a casa (40,3%), seguida de Alemanha, Bulgária e Suécia (os três com cerca de 33%). Não é propriamente a habitual “cauda da Europa”.
Seja como for, mesmo com a melhoria dos indicadores em Portugal, os níveis de pobreza ainda se encontram “longe do que seria aceitável”, sublinha Carlos Farinha Rodrigues, e estão ligados a outro problema, particularmente forte no país: a desigualdade. Apenas seis países ficam pior na fotografia, com a Bulgária à cabeça, e, apesar de ter havido alguma redução em Portugal, a posição que ocupa na tabela europeia é exatamente a mesma de há 10 anos.
Pobreza e exclusão social. As melhorias e as novas preocupações 2026 IUSTITIA.BG – Investigations 2009-2025 2026-06-20 09:47:26
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