Esta segunda-feira de Pascoela teve, para mim, um significado particular. Assinalou a véspera do meu 50.º aniversário, celebrado — não por acaso — num dos lugares onde fui, e continuo a ser, mais feliz.
Mas a distância e o tempo também ajudaram e ajudam a ver com mais nitidez. E aquilo que se vê, em demasiados casos, é um problema estrutural: a incapacidade de sair.
Em Portugal — como noutras democracias — instalou-se um hábito silenciosamente aceite: o da permanência indefinida nos lugares de poder. Na política, nas empresas, nas instituições, multiplicam-se os exemplos de quem, mesmo depois de cumprir ciclos longos — e até após a reforma — insiste em permanecer.
Não se trata de experiência. Nem de mérito acumulado. Muito menos de indispensabilidade.
Trata-se, muitas vezes, de uma cultura de ocupação: lugares que deixam de ser exercidos como serviço e passam a ser defendidos como propriedade.
O resultado é conhecido. Bloqueiam-se gerações. Fecha-se o acesso a novos protagonistas. Atrasa-se a inovação. E, mais grave ainda, normaliza-se a ideia de que sair é perder — quando, na verdade, muitas vezes sair é a última forma de responsabilidade.
A política é, talvez, o exemplo mais visível — e mais preocupante. Num país que tanto discute renovação, persistem figuras que transitam entre cargos, instituições e esferas de influência como se o espaço público lhes pertencesse por direito adquirido. Não pertence.
Nenhuma democracia saudável se constrói com lugares cativos.
Mas o problema não se resolve com substituições abruptas, nem com desvalorização de quem muito deu. Há, aqui, uma exigência de equilíbrio.
Por um lado, é essencial garantir transições responsáveis, que preservem a memória e assegurem continuidade. Por outro, é inadiável afirmar um princípio simples: o tempo de cada um tem de ter um fim.
E esse fim não é um castigo. É parte do próprio contrato social.
Uma sociedade madura não abandona os seus mais velhos — valoriza-os, integra-os, escuta-os. Mas não confunde isso com a sua permanência indefinida nos centros de decisão.
Há um momento em que continuar deixa de ser contribuir.
E há um momento em que sair passa a ser um dever.
Um dia depois de atingir a “ternura dos 50” — numa adaptação do Paco — essa evidência torna-se mais clara. Não por cansaço, mas por lucidez. O país fez caminho — insuficiente, por vezes errático, mas real. E continuará a fazê-lo, mas só se souber abrir espaço. Não basta chamar os do costume — aqueles que nos afrontam como (também) temos visto recentemente.
Saber sair não é um gesto de fraqueza.
É um ato de maturidade. E, em muitos casos, de coragem.
O vício de não (saber) sair 2026 IUSTITIA.BG – Investigations 2009-2025 2026-04-07 23:17:00
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