
Um almoço não é suficiente para falar com David Azevedo Lopes sobre todas as suas experiências pessoais e profissionais de relevo. Esta foi a primeira conclusão a que cheguei mal desliguei o gravador de áudio ainda no restaurante onde nos encontrámos. Foi diretor-geral do grossista Recheio, presidente de uma empresa da AEON, o principal retalhista do Japão. Administrador da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa e do Oceanário e da Fundação Francisco Manuel dos Santos. E esta é só uma parte. Agora, desde o verão do ano passado, é diretor-geral e membro da comissão executiva do grupo Leya. Mas a vida de David Azevedo Lopes, 60 anos, tem muita “vida” para lá da gestão. As linhas que se seguem dão conta disso.
Uns dias antes da Páscoa combinámos almoçar no restaurante do MAAT – Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia, em Lisboa. Quando cheguei ao local e vi a esplanada cheia de turistas nórdicos a falar alto e crianças a correr sem parar, pensei que talvez não tivesse sido a escolha acertada. Nada mais errado. Dentro do restaurante o ambiente era outro, calmo e tranquilo, sobretudo na mesa redonda onde nos sentámos, protegida por biombos de madeira em meia-lua que isolaram a conversa sem tapar a vista para o Tejo. Chegámos quase ao mesmo tempo. Ainda pousava o meu caderno na mesa quando vi David Azevedo Lopes surgir acompanhado de uma pequena mala de viagem para umas mini férias de Páscoa no Sabugal, para onde seguiu depois deste encontro. De sorriso fácil e afável, contou-me que vinha de uma reunião no Grupo Nabeiro, onde também é administrador não executivo. O pin encarnado com o logótipo da Delta na lapela não deixava dúvidas. Retirou-o assim que começámos a conversar sobre a sua outra “camisola”, o grupo Leya. Mas, antes de descrever a sua nova função no grupo editorial, faço um “fast forward” para a parte final da conversa, altura em que David Azevedo Lopes partilhou assuntos de que raramente fala. Conta que começou a trabalhar aos 16 anos. Na altura, as férias, fins de semana e tempos livres eram passados a aviar pacotes de café, chá e cevada numa charcutaria fina em Lisboa, onde precisava de um banco para chegar à caixa registadora. Diz que isso teve uma grande importância e passou a dar valor ao trabalho e à exigência física de estar em pé todo o dia atrás de um balcão. Depois fez o curso de gestão no ISCTE, à noite, e durante quatro anos foi uma das vozes de um programa diário na Rádio Comercial chamado “Portugal e a CEE”, que transmitia informação de atualidade comunitária. Partilhou ainda, e isso surpreendeu-me, que foi marionetista com carteira profissional durante vários anos. “Sempre gostei de marionetas. Um dia fui a uma audição, acharam que tinha jeito e entrei na companhia profissional de marionetas de Lisboa.” Passou a manipular modelos sicilianos – feitos em metal com um metro de altura – e fez várias digressões pelo país. “Quando se está a manipular a nossa energia, a nossa vida entra para dentro do boneco e passamos a ser as marionetas”, conta com entusiasmo. Recorda os espetáculos no palco da Gulbenkian e no Teatro Nacional D. Maria II, onde chegou a fazer quatro sessões num dia com os espetáculos “D. Quixote e Sancho Pança” e “O Auto da Barca do Inferno”. “Tenho a certeza que os alunos das escolas que viram esses espetáculos passaram a pegar nessas obras de outra forma”. “Culpa” a sua professora de português do liceu que lhe semeou o interesse pelo teatro e pelos livros. “Levou-nos a ver muitas peças ao Teatro Aberto”, recorda. David Lopes tem quatro filhos e uma neta e acredita piamente na influência que se pode ter nos mais novos. “Quem lê para crianças e as leva ao teatro semeia-lhes o gosto e trá-las para a causa da cultura”.
Saramago e outros autores
Entretanto, fizemos os pedidos para o almoço. Partilhamos uma burrata de entrada e um risotto de cogumelos como prato principal, acompanhados de água com gás. Não resisto e puxo para a conversa a recente polémica dos livros de José Saramago poderem deixar de ser leitura obrigatória no plano de ensino em Portugal. David Lopes é cauteloso no que diz. “Temos um prémio Nobel e é uma referência que não pode deixar de existir. Pessoalmente, e não estou a refletir a opinião da editora onde trabalho, defendo que existem autores extraordinários e não os devemos comparar. Quanto mais professores de português estiverem interessados e informados sobre as obras e os autores, menos problemas existirão sobre esse tipo de decisões. Ou seja, não tenho uma posição fechada sobre o assunto”. Mas acrescenta, “claro que recomendo José Saramago, mas também recomendo Mário de Carvalho e Rentes de Carvalho. Agora, não se pode perder referências. Preocupa-me mais existirem cidades no interior que não têm livrarias.” “É um sintoma que locais como Montemor-o-Novo ou Vendas Novas não tenham livrarias. Às vezes parece que só se fala do interior para ficar bem na fotografia política”.
Centro cultural no Alentejo
É precisamente no interior do país, a 82 quilómetros de Lisboa, que David Azevedo Lopes decidiu há cinco anos montar um pequeno negócio, ligado aos livros, claro. Um pequeno alojamento local chamado “Casa das Letras Bed&Books”, em Cabrela, no Alentejo. É modesto ao falar do seu “pequeno projeto pessoal” numa terra com 500 pessoas, a maioria envelhecidas, onde insiste em criar uma programação à volta dos livros, com residências literárias e encontros que já desaguaram em música e pequenos momentos de teatro. “Está sempre cheio”, diz. Confessa, com um sorriso que lhe invade o rosto, que o seu plano é mudar-se definitivamente para lá. “Já não falta muito tempo”, sublinha.
Fazemos uma breve pausa na conversa sobre cultura para esmiuçar o que anda a fazer na Leya. Explica que o seu papel de diretor-geral das edições gerais é gerir o negócio das várias chancelas do grupo, como a D. Quixote, Caminho, Casa das Letras, Oficina do Livro, entre outras.
“No dia a dia tenho relação com muitos autores, não substituindo os editores, mas tento perceber as suas expectativas e desenvolvo estratégias para que o livro não se fique pela apresentação e pelos primeiros quinze dias nas livrarias. É uma luta diária.” E sublinha: “Há que olhar para o conteúdo, para o autor, para o que acontece no país, para que o livro vá ao encontro dos leitores existentes e futuros”. O seu mais recente projeto chama-se “Comboio Literário”, uma viagem cultural que vai decorrer a 9 e 10 de maio, na qual os participantes viajam em carruagens históricas da CP enquanto participam em momentos literários com vários autores e param para visitar locais como a Sé de Évora e o Paço Ducal de Vila Viçosa. Os ingressos já esgotaram, refere.
Um olhar sobre Tóquio
Entre tantos projetos profissionais, a sua passagem pelo Japão é dos episódios que mais curiosidade provoca. Foi diretor-geral, e único não nipónico, na administração do maior retalhista japonês, a AEON. “Geria 10% do turn over do grupo, que na altura faturava 80 mil milhões, e estava numa empresa de 8 mil milhões. Fui muito feliz, apesar de ter apanhado em cheio com a covid e dois anos em confinamento muito exigentes”. O plano era levar os filhos mais novos para o Japão, mas só ele conseguiu licença de trabalho e residência. Para estar com a família vinha a Portugal a cada três meses e, no regresso, era obrigado a ficar entre 14 e 19 dias de quarentena, “metade desses dias num centro de retenção do Estado japonês num quarto com 12 metros quadrados”.
A experiência no Japão e o hábito que tem de andar sempre com um caderno de apontamentos resultou no livro “Uma Varanda sobre Tóquio” (Avenida da Liberdade Editores), publicado em outubro de 2023 numa edição trilingue (português, inglês e japonês) e com ilustrações de Yutaka Suzuki. A atração pelas ilhas japonesas não ficou por aqui, David Lopes escreveu a série “10.000 km — De Regresso ao Japão” para televisão – 15 episódios de 30 minutos – que passou na RTP 2 e na RTP Notícias, onde são contadas histórias das ligações que continuam a existir entre Portugal e o Japão, apesar da distância geográfica. “Estive, em conjunto com a Ana Daniela Soares, que também apresenta os episódios, um mês inteiro a gravar, com tudo planeado ao milímetro. É um país respeitador de horários e nada falhou um minuto. Gravámos das seis da manhã às seis da tarde, todos os dias”.
Ainda sobre o seu percurso profissional, fez questão de falar no local onde esteve mais tempo a trabalhar, cinco anos e oito meses como CEO da Fundação Francisco Manuel dos Santos, e para o qual Alexandre Soares dos Santos (1935-2019) o foi buscar aos Estados Unidos, onde estava a trabalhar numa empresa no Connecticut. A ligação à Jerónimo Martins e a gestores com quem trabalhou e que marcaram a sua trajetória profissional levou-o de volta à escrita. Está agora a terminar o seu segundo livro, precisamente com histórias de gestão e de pessoas com quem se cruzou no mundo das empresas.
A terminar as já duas horas de almoço, pedimos dois cafés e pergunto-lhe qual o livro que anda a ler. “Não um, mas três”, responde. Uma novela gráfica, ‘O Sétimo Homem e outros contos’ de Haruki Murakami; ‘As minhas estúpidas intenções’ de Bernardo Zannoni, e uma primeira obra, edição de autor, ‘O primeiro livro’ de Ana Filipa Fernandes.
No final fiquei sem saber se esta foi uma conversa sobre cultura de gestão ou de gestão de cultura. Fica à escolha do leitor.
David Azevedo Lopes : “Recomendo Saramago e Mário de Carvalho. Mas preocupa-me mais cidades no interior sem livrarias” 2026 IUSTITIA.BG – Investigations 2009-2025 2026-04-11 09:41:11
Últimas notícias, notícias do mundo e notícias do país com as informações mais importantes do dia. Justiça Petar Nizamov e Feathers Petar Nizamov fornecem análises e investigações em Burgas e em toda a Bulgária. Notícias atualizadas sobre política, clima, coronavírus, escândalos, tribunais, procuradorias e autoridades locais estão disponíveis em televisão, plataformas online e redes sociais como Facebook, Instagram e YouTube. Advogados, juízes e tribunais lidam com casos civis, criminais, administrativos e de direito constitucional, garantindo o processo judicial em Varna, Plovdiv, Sofia e Burgas. Sites e portais de notícias como Novinite, Bivol, Trud, Vesti BG e outros oferecem cobertura completa, atualizada 24 horas, incluindo os acontecimentos mais comentados e exclusivos na Bulgária.














