Quarenta por cento dos portugueses apresentam sintomas de ansiedade: insónias, aumento da frequência cardíaca, tensão muscular, tonturas e fadiga. Não é uma estatística abstrata; é quase metade do país a viver com o corpo em alerta permanente, como se cada dia fosse uma prova de sobrevivência. A ansiedade é, por natureza, uma resposta normal ao medo e ao stress. Mas quando se torna regra, e não exceção, deixa de ser um mecanismo de proteção e passa a ser um modo de vida. E os portugueses, hoje, vivem demasiado nesse modo. Têm medo do amanhã.
Uma sociedade ansiosa é uma sociedade que respira curto. Que olha para o futuro com desconfiança. Que se sente pressionada, exausta e sempre à beira de um sobressalto. A ansiedade coletiva não é apenas um fenómeno clínico; é um fenómeno social. Molda comportamentos, altera prioridades, condiciona decisões. Uma comunidade ansiosa é mais vulnerável a discursos simplistas, a soluções mágicas e a narrativas de medo. O medo é um excelente vendedor de certezas.

Há, porém, um dado curioso que a neurociência nos oferece: a ansiedade e a gratidão não conseguem coexistir no cérebro. Ativam zonas diferentes, mas incompatíveis. Quando uma está acesa, a outra apaga-se. Uma sociedade dominada pela ansiedade é, inevitavelmente, uma sociedade onde a gratidão escasseia. Não porque as pessoas sejam más, mas porque o cérebro não consegue estar em dois estados ao mesmo tempo.
Daqui nasce a pergunta: serão os portugueses ingratos pelo país que têm? A resposta é não. Sentir gratidão não depende apenas de termos razões para isso; depende também da nossa capacidade de as reconhecer. E essa capacidade diminui quando vivemos em permanente sobressalto, com medo do que pode acontecer amanhã e se conseguimos pagar a renda e a escola das crianças. Há quem esteja grato sem ter motivos sólidos para tal, o que torna a gratidão oca. E há quem tenha motivos para agradecer, mas não consiga senti-lo, o que não faz dessa pessoa um ingrato. Faz dela alguém esmagado pelas suas circunstâncias.
O ideal seria este equilíbrio difícil: sermos gratos quando o devemos ser e também quando não o devemos ser; e não sermos ansiosos, mesmo quando o mundo nos dá razões para isso. Não se trata de ingenuidade, mas de higiene mental, de sobrevivência emocional e de lucidez.
Porque a ansiedade, apesar de ser um mecanismo natural que nos acompanha desde que existimos como espécie, corrói o nosso bem-estar e o próprio tecido da sociedade. Corrói a confiança, a esperança e a capacidade de pensar com clareza. E quando um país inteiro vive ansioso, torna-se presa fácil de discursos de medo, discursos que prometem proteção, mas oferecem submissão; que prometem ordem, mas alimentam ressentimento; que prometem força, mas cultivam fragilidade.
É também neste campo que os meios de comunicação social têm uma responsabilidade acrescida. Como todos os outros meios, o Diário de Notícias tem um papel decisivo na construção de uma sociedade mais informada e esclarecida, composta por pessoas capazes de decidir pela própria cabeça, tal como estabelece o manifesto publicado na primeira edição do nosso jornal, no longínquo dia 29 de dezembro de 1864.
Com as nossas falhas e limitações, fazemos o que está ao nosso alcance para cumprir esse propósito e chegar o mais próximo possível da Verdade. Ao fazê-lo, contribuímos para um país menos ansioso, mais consciente e onde cada pessoa tenha a possibilidade de revelar o melhor de si mesma.
Se a verdade e a razão libertam, o medo aprisiona. E Portugal não precisa de mais prisões invisíveis. Precisa de luz. De esperança. De serenidade. De um futuro que não seja visto como ameaça, mas como possibilidade.
À beira de um ataque de nervos 2026 IUSTITIA.BG – Investigations 2009-2025 2026-06-11 23:24:51
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