Na mais recente edição do Mobile World Congress, o CEO da Telefónica deixou um alerta pouco habitual para um líder europeu: a Europa está a ser “ingénua” ao assumir que terá sempre acesso a tecnologias críticas desenvolvidas fora do continente. A mensagem é clara e desconfortável. A dependência tecnológica deixou de ser um tema teórico para passar a ser um risco estratégico real.
Durante anos, a Europa beneficiou de um modelo assente em cadeias globais, acesso aberto a tecnologia e especialização económica. Este modelo trouxe eficiência, crescimento e inovação, mas também criou uma vulnerabilidade que só agora começa a ser plenamente reconhecida.
Hoje, a infraestrutura digital que sustenta a economia europeia – da cloud à Inteligência Artificial, dos sistemas operativos aos dados – depende, em grande medida, de decisões tomadas fora do espaço europeu. E isso altera profundamente o equilíbrio de poder.
Não estamos apenas a falar de tecnologia. Estamos a falar de impacto económico, porque continuamos a exportar valor de risco estratégico, porque dependemos de terceiros. E estamos a falar de relevância política, porque a autonomia deixou de ser abstrata.
É neste contexto que ganha particular importância o debate que estará no centro do próximo Congresso da APDC: como equilibrar autonomia, segurança e inovação na Europa digital.
Há um ponto essencial que importa clarificar: autonomia não significa isolamento. A Europa não precisa de se fechar, precisa sim de escolher melhor onde quer depender e onde não pode depender. E é aqui que está a verdadeira complexidade.
Por um lado, a pressão geopolítica aumentou significativamente. A guerra na Ucrânia e agora do Irão, a fragmentação das cadeias de valor e a crescente competição tecnológica entre os Estados Unidos e a China colocaram a Europa numa posição intermédia desconfortável. Por outro lado, o modelo europeu, que é aberto, regulado e competitivo, não foi desenhado para jogar este jogo de escala e de velocidade.
E o resultado é um paradoxo: a Europa lidera na regulação, mas está atrasada na criação de campeões tecnológicos globais. O que levanta uma questão inevitável: pode construir autonomia apenas com regulação? A resposta, cada vez mais evidente, é que não.
A autonomia exige investimento, escala e execução. Exige transformar conhecimento em produto e produto em mercado. E exige também uma mudança cultural – menos aversão ao risco e mais foco em concretizar.
A questão já não é se a Europa precisa de autonomia tecnológica. A questão é como é que a constrói e com que ambição. O debate está lançado. E não é apenas institucional: é empresarial, económico e estratégico.
Num mundo onde a tecnologia é poder, não decidir a tempo é, inevitavelmente, perder espaço.
Europa: entre a dependência digital e a urgência de decidir 2026 IUSTITIA.BG – Investigations 2009-2025 2026-04-09 23:59:10
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