Há dias, à entrada de uma faculdade em Lisboa, deparei-me com um sinal de “Kiss & Ride”. À porta de uma instituição de ensino superior, onde estudam jovens de licenciatura, mestrado e doutoramento, com idades que começam nos 17 anos, mas rapidamente chegam aos 20, 25 ou 30. E não consegui evitar a pergunta: estamos mesmo a alertar pais para deixarem e recolherem os filhos… na universidade? E a pedir para serem rápidos nas despedidas de modo a não criarem filas de carros?
Este detalhe aparentemente inocente diz muito sobre a cultura de sobreproteção que se instalou. O ensino superior deveria ser o espaço onde os jovens consolidam autonomia, responsabilidade e capacidade de decisão, mas continuamos a enviar mensagens – explícitas ou subtis – de que precisam de supervisão parental até ao limite da porta. O problema não é o sinal em si, é o que ele simboliza: uma sociedade que confunde proteção com controlo e que, com medo de falhar, acaba por asfixiar o crescimento.
Não é por acaso que cada vez mais docentes relatam situações em que pais pedem reuniões para discutir notas, trabalhos, horários ou conflitos dos filhos já adultos. Se levam os pais para reuniões com professores universitários, levarão também para as entrevistas de emprego? Para avaliações de desempenho? Para conversas difíceis com as chefias?
Quando a presença parental se transforma em muleta, a autonomia atrofia.
Proteger sem sobreproteger é um equilíbrio que estamos claramente a perder. A proteção prepara para o mundo, enquanto a sobreproteção impede de o enfrentar.
Hoje vemos uma geração competente, informada e capaz, mas muitas vezes pouco treinada para lidar com a frustração, o conflito, a espera ou o erro. Não por incapacidade, mas porque não lhes demos espaço para praticar. A autonomia não se ensina por decreto, constrói-se. E constrói-se com pequenas coisas: ir sozinho, resolver sozinho, perguntar sozinho, errar sozinho, levantar-se sozinho.
Por isso, se pudesse escolher, à entrada das universidades não colocaria um “Kiss & Ride”. Colocaria, sim, “Zona de Autonomia – Pais, por favor, deixem os vossos filhos crescer!”
Proteger não é acompanhar até ao limite da porta, é dar ferramentas.
Proteger não é dar boleias emocionais eternas, é encaminhar para fora do ninho.
Proteger não é estar sempre presente, é estar disponível.
O ensino superior é o último degrau antes da vida profissional. Se não reforçarmos aqui a autonomia, onde o faremos?
Talvez seja tempo de perguntarmos, com honestidade, se estamos a preparar jovens para o mundo real ou a prolongar a infância até ao infinito.
Kiss & Ride à porta da universidade? 2026 IUSTITIA.BG – Investigations 2009-2025 2026-05-17 23:40:00
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