
A Europa está a ressentir-se dos efeitos de duas “operações militares” (não lhe chamo “guerras” porque, por razões diversas, nunca foram declaradas como tal), na Ucrânia e no Golfo Pérsico, que nunca quis, e nas quais, contra a sua vontade, se viu envolvida com maior ou menor intensidade.
Face às suas origens e às condições em que decorrem, as duas situações têm, para a Europa, impactos diferenciados ao nível económico, embora em larga medida tanto uma como outra afectem fundamentalmente o abastecimento de produtos energéticos. A diferença está em que a proibição das empresas europeias adquirirem petróleo russo não impede que a Rússia procure outros compradores e acabe por vender à China e à Índia, e teve como efeito um certo reequilíbrio do mercado, sem causar repercussões económicas sérias para a Europa. Mas o bloqueio do Estreito de Ormuz que resultou da “Operação Fúria Épica” (que em termos geopolíticos interessa aos EUA devido ao papel de Israel, mas não afecta interesses fundamentais europeus) retira produto do mercado e provoca um aumento dos preços do petróleo e dos produtos refinados, e se for prolongado no tempo terá inevitavelmente repercussões sérias na economia.
A “operação militar especial” da Federação Russa sobre a Ucrânia, que já vai no quarto ano (ignorando a ocupação da Crimeia em 2014) não teve um grande impacto económico na Europa (entretanto as sanções económicas ocidentais parecem estar a produzir efeitos na economia russa). Mas provocou uma alteração política fundamental na forma como a União Europeia e os seus Estados Membros e outros países europeus encaram a Federação Russa. A Europa reconheceu que a Federação Russa mantém a visão geoestratégica da Rússia Czarista e da União Soviética: a falta de fronteiras naturais e de saídas para o mar são fragilidades essenciais da nação russa, que pretende ter um uma posição de proeminência relativamente aos restantes povos eslavos e da Europa de Leste e Central.
O que varia relativamente a este quadro fundamental não é a posição russa, mas sim a da Europa, sobretudo a partir da criação da NATO e da União Europeia. A NATO surgiu do reconhecimento de que a União Soviética se tinha definitivamente convertido num adversário que disputava com os Estados Unidos e o resto do Ocidente um certo domínio sobre pelo menos partes relevantes do planeta; a União Europeia veio afastar definitivamente (pelo menos esse era o projecto inicial) o espectro das guerras na Europa Central e Ocidental, através do estabelecimento e reforço de laços de cooperação e integração económica, gradualmente alargados aos domínios políticos.
A agressão à Ucrânia reforçou a noção de que a Rússia é um adversário e não um parceiro. Motivou a rápida adesão da Suécia e da Finlândia à NATO, e facilitou a cedência dos governos europeus às exigências dos EUA relativamente ao aumento das despesas com a defesa. Essa noção, aliada à imprevisibilidade da actual administração americana, que se desinteressa da situação da Ucrânia por não a ver como ameaça para si, e privilegia os interesse nacionais em detrimento das alianças geoestratégicas (e tende considerar a NATO inútil, mesmo sem a invocar), que está a levar a Europa a adoptar quadros alargados de cooperação em matéria de política externa e de defesa – porque a “Europa das Nações” está definitivamente em crise, e a União Europeia precisa de ter uma entidade própria para sobreviver num novo mundo multipolar.
As “operações militares” e as mudanças necessárias na Europa 2026 IUSTITIA.BG – Investigations 2009-2025 2026-05-12 23:55:26
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