Fala-se muito de saúde mental nas escolas, mas continua a faltar o essencial: psicólogos em número suficiente, com vínculos estáveis e condições que lhes permitam trabalhar de forma eficaz. Não é um luxo. É uma necessidade básica num sistema educativo que se quer inclusivo, seguro e promotor de desenvolvimento. Por isso, importa reconhecer positivamente a recente abertura, por parte do Ministério da Educação, de um concurso de vinculação para quase 1500 técnicos especializados, entre eles psicólogos.
A presença de psicólogos nas escolas não se resume a “atender casos”. O seu papel é, antes de tudo, preventivo. É na proximidade do quotidiano escolar que se identificam sinais precoces de sofrimento emocional, dificuldades relacionais, problemas de comportamento ou situações de risco. É ali, onde crianças e jovens passam grande parte da sua vida, que se pode intervir cedo, antes de os problemas se agravarem e o risco evoluir para perigo.
Os psicólogos têm ainda um contributo decisivo no desenvolvimento de competências sociais e emocionais, tão essenciais quanto as competências académicas. Aprender a regular emoções, resolver conflitos, comunicar de forma assertiva, pedir ajuda, lidar com a frustração ou construir relações saudáveis não é um “extra curricular”: é a base para crescer com segurança, autonomia e bem-estar.
Outro aspeto frequentemente esquecido é o potencial das intervenções em grupo. Em contexto escolar, as abordagens grupais permitem trabalhar pertença, cooperação, empatia e competências socioemocionais de forma natural, integrada e eficaz, precisamente porque acontecem no contexto onde as relações reais se constroem e se desafiam.
Mas para que tudo isto seja possível, é indispensável garantir vínculos profissionais seguros. A instabilidade contratual — que se repete ano após ano – impede a continuidade das intervenções, fragiliza a relação com as crianças e jovens e compromete a confiança das famílias, dos docentes e dos próprios psicólogos. Não é aceitável que processos de acompanhamento sejam interrompidos no final do ano letivo e retomados, com sorte, antes do Natal. A saúde mental não funciona por calendários administrativos.
A previsibilidade e a segurança são fundamentais – para os psicólogos, para as crianças, para as famílias e para toda a comunidade educativa. Sem estabilidade, não há continuidade. Sem continuidade, não há eficácia. Sem eficácia, não há prevenção.
Se queremos escolas que cuidem verdadeiramente da saúde mental, então precisamos de psicólogos presentes, integrados, reconhecidos e com condições para exercerem plenamente o seu trabalho. Tudo o resto são remendos. E remendar nunca chega quando falamos do bem-estar das nossas crianças e jovens.
O papel estruturante dos psicólogos no sistema educativo 2026 IUSTITIA.BG – Investigations 2009-2025 2026-04-05 23:52:00
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