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Luís Parreirão: “Perturba-me esta vertigem de afirmar divergências a 48 horas do Congresso” 2026

Юстиция Иванова by Юстиция Иванова
март 26, 2026
in Politica
0
Luís Parreirão: “Perturba-me esta vertigem de afirmar divergências a 48 horas do Congresso” 2026

Luís Parreirão: “Perturba me esta vertigem de afirmar divergências a horas do Congresso”

Às portas de um Congresso do Partido Socialista, Luís Parreirão entra no debate interno sem rodeios. Com quase meio século de militância, critica divergências „tardias“, que considera pouco estruturadas, e rejeita a ideia de um partido sem debate, apontando antes a um passado recente – referência a lideranças de António Costa e de Pedro Nuno Santos – marcado por “unanimismo hipócrita”. Entre a polémica da viagem à Venezuela e o impasse no Tribunal Constitucional, o dirigente socialista, membro do secretariado nacional, defende a atuação de José Luís Carneiro e traça o caminho que, na sua visão, o PS deve seguir: o de uma esquerda moderada, reformista e com vocação de poder.

O PS chega ao Congresso com uma polémica e uma questão em aberto: a viagem de José Luís Carneiro à Venezuela e o impasse no Tribunal Constitucional. Como lê estes dois temas?
José Luís Carneiro foi à Venezuela numa missão de solidariedade com os portugueses e com a mensagem de que em Portugal há uma clara preocupação com todos os portugueses. Essa é a mensagem central. Tanto mais que ele foi secretário de Estado das Comunidades e, portanto, criou relações de grande proximidade com as nossas comunidades.

Acha então que foi no momento certo?
Foi no momento em que foi. É bom que países como a Venezuela percebam que em Portugal não há dúvidas nem divergências sobre a nossa defesa dos direitos humanos e a defesa dos direitos dos cidadãos.

O que deve o PS fazer no caso do Tribunal Constitucional?
A discussão à volta dos nomes do Tribunal Constitucional não será, porventura, a verdadeira discussão. O que é preciso esclarecer, o que o PSD tem de esclarecer, é qual  a sua estratégia na construção e liderança de um bloco de direita e de extrema-direita em Portugal. Porque, verdadeiramente, o que está em causa não é o juiz do Tribunal Constitucional. O que está em causa é a clara rejeição, por dois terços dos portugueses, da extrema-direita. E também isto: a possibilidade de destruição do Tribunal Constitucional enquanto tribunal que garante e defende os princípios constitucionais, conforme alerta um constitucionalista renomado como Jorge Novais. E, portanto, vejo com dificuldade que aqueles que defendem esses princípios sejam agora arredados. Mas também vejo com igual dificuldade esta discussão muito acentuada na praça pública, que o PS não promoveu, de uma questão que foi sempre tratada com alguma discrição. Aliás, as pessoas já não recordarão, mas, há muitos anos, numa lista para o Tribunal Constitucional, o PS também incluiu pessoas próximas do Partido Comunista Português, que tinha então uma expressão significativa. Mas há aqui um equilíbrio que tem de ser preservado e que aparentemente está a ser sacrificado no altar da estratégia do PSD, que oscila entre Montenegro e Passos Coelho, a ver qual deles lidera o bloco de direita e qual deles é mais radical à direita.

Está a comparar o PCP ao  CHEGA?

Não estou a comparar, apenas a defender equilíbrio e bom senso nas propostas.

O que é preciso esclarecer, o que o PSD tem de esclarecer, é qual  a sua estratégia na construção e liderança de um bloco de direita e de extrema-direita em Portugal. Porque, verdadeiramente, o que está em causa não é o juiz do Tribunal Constitucional. O que está em causa é a clara rejeição, por dois terços dos portugueses, da extrema-direita.“

Que importância tem este Congresso que se previa morno?
Só vai ser morno para aqueles que quiserem que seja. Sendo militante do PS há quase 50 anos, creio poder dizer que o PS viciou-se num certo unanimismo hipócrita. Ou seja, tivemos um longo período no poder sem debate interno. Ora a matriz do PS é o debate e a discussão política interna. E por isso, vejo com dificuldade que aqueles que não tiveram a capacidade, quando tinham responsabilidades, de promover este debate interno venham agora reivindicá-lo, como expediente dilatório.

Está a falar das vozes críticas, nomeadamente de Miguel Costa Matos e da moção “Socialismo com Futuro”?
Desse e de outros. Mas perguntou-me qual é a importância deste Congresso. Há três objetivos muito importantes. O objetivo central de legitimar os órgãos do partido, um outro, claro na moção apresentada, que é iniciar um processo de modernização do PS, que pode e deve passar por uma reforma estatutária que traga o partido para os tempos de hoje. E tem depois um outro grande desafio: habilitar o PS a apresentar uma proposta reformista para Portugal.

Está particularmente motivado para este congresso. Por que razão agora
Vou ao Congresso com a vontade de dizer aquilo que penso e de olhar para o futuro do partido. Quem tem o percurso tem responsabilidades. Desde logo de cidadania. É preciso ser claro: quem tem opiniões diferentes, que são, aliás, a matriz do PS, faz uma moção e candidata-se. Foi sempre assim no PS. Perturba-me esta vertigem de afirmar divergências a 48 horas do Congresso. Ao longo destes meus quase 50 anos apoiei Jaime Gama contra Vítor Constâncio, António Guterres contra Jorge Sampaio, Manuel Alegre contra José Sócrates. Apoiei José Luís Carneiro quando Pedro Nuno Santos parecia ter 100% do partido. Portanto, isso nunca foi problema no PS. Nem pode ser. Repito: o debate e a discussão são a matriz do PS. Agora, também acho que o PS tem de olhar para o futuro, apresentar propostas concretas e propostas que melhorem a vida dos portugueses. O desafio do PS não é justificar, louvar, o que os seus governos fizeram. O objetivo do PS é dizer aos portugueses o que é que quer fazer quando for governo. E acho muito bem que venha uma nova geração…

O PS precisa de caras novas?
Agora essa nova geração tem de, a meu ver, distinguir-se pelo mérito, pela afirmação de cidadania, pelo percurso académico e profissional, pela probidade. É preciso desmentir uma ideia que se cria porque há uma certa cumplicidade, uma lógica de aparelho ou de grupo. Não é assim. E, por isso, a minha intervenção neste congresso tem a ver com sentir que há aqui uma certa deriva que pode levar  o PS  a deixar de ser um partido central na vida portuguesa. O PS não é nem pode ser um Bloco de Esquerda moderado. O PS é um partido da esquerda moderada, que é uma coisa diferente. Defende um Estado forte que defende os fracos e defende a iniciativa privada e as empresas como motor do desenvolvimento.

E a renovação partidária
Há uma necessidade imperiosa de formação dos nossos protagonistas políticos, até porque quis a história que muitos deles o fossem durante muito tempo, e porventura isso não é nem bom nem mau. Mas há que abrir espaço para novos protagonistas, com valor, com mérito. Há uma enorme plateia de autarcas eleitos, que as suas comunidades reconheceram e que devem ter um protagonismo mais acentuado. São pessoas com legitimidade, reconhecidas nos seus meios, que resolvem os problemas dos concidadãos. Essas pessoas devem ter um protagonismo que hoje, infelizmente, muitas delas não têm no PS.

Ainda há elitismo no PS?
Acho que porventura ainda haverá algumas marcas. Acho também que deste Congresso resultará que essas marcas se irão diluir.

A minha intervenção neste congresso tem a ver com sentir que há aqui uma certa deriva que pode levar  o PS  a deixar de ser um partido central na vida portuguesa. O PS não é nem pode ser um Bloco de Esquerda moderado. O PS é um partido da esquerda moderada, que é uma coisa diferente.“

Deriva para a esquerda. No atual contexto, acredita mesmo que seria possível?

O que digo é que o PS não pode ter essa tentação com algumas propostas que têm surgido. Ao longo destes oito meses o secretário-geral foi recentrando o PS, trazendo o partido para a sua matriz de sempre. A esquerda moderada que dialoga com o povo. Foi apresentada uma moção global de estratégia e portanto, essa é a que pode vingar. O problema é que se vai criando a ideia de que há divergências a uma semana do Congresso, quando toda a gente teve todo o tempo do mundo para afirmar as suas divergências, para explicar as suas opções aos militantes e, a partir daí, candidatar-se, apresentar listas e defender as suas posições, e não esta “não frontalidade”, quando o PS sempre se caracterizou pelo oposto. Como dizia um camarada meu: no PS já todos estivemos com todos e contra todos. Nunca veio mal ao mundo.

Discorda das divergências e sobretudo do timing, é isso?
São pouco corajosas.  São apresentadas só agora e não corporizam uma verdadeira opção política. Parece ser, diria quase sem ser desagradável, uma birra contra o secretário-geral. Ora bem, eu acho que o secretário-geral até teria visto com bons olhos que quem não pensa como ele afirmasse a diferença. Eu veria. É o que há de mais saudável e mais eficaz do ponto de vista político.

É acérrimo defensor de que é ao centro que se ganham eleições.
Ganham-se ao centro mas não por magia. Ganham-se com aquilo que o PS está a fazer. Um bloco diverso. Faz a pedagogia da democracia para um lado e constrói um bloco que apanha muitos setores à direita do PS, alguns setores à esquerda do PS, construindo um grande bloco eleitoral. Não é em nome de uma tática, mas em nome de uma ideia.

As divergências são apresentadas só agora e não corporizam uma verdadeira opção política. Parece ser quase, diria sem querer ser desagradável, uma birra contra o secretário-geral.“

Que ideia é essa
A ideia é uma ideia de moderação e de resolver os problemas concretos das pessoas, sem ruturas e sem radicalismos. Viu-se o que aconteceu nas últimas eleições legislativas. Uma certa deriva radical do PS viu-se no que deu.

Explica assim a queda do PS para terceiro partido.
O PS chegou a terceiro partido porque depois de uma governação que terminou de uma forma infeliz se apresentou aos portugueses com um discurso radical e com uma postura radical que não criou confiança em muitos portugueses, alguns deles eleitores tradicionais do PS.

Em que propostas viu essa radicalidade?
Faltou nessa ao PS um discurso que tranquilizasse e mobilizasse, por exemplo, os setores empresariais para votarem no PS. Isso, para mim, é claro. Nós temos responsabilidades políticas, temos um percurso e, de facto, o percurso do candidato do PS nessa altura era um percurso que, por culpa própria ou por culpa da imagem que criou, anunciava alguma instabilidade.

Dê-me um exemplo de uma proposta radical de Pedro Nuno Santos.
Não tenho aqui o programa à frente, mas, por exemplo, não anunciava planos de tranquilidade nas relações laborais, por exemplo.

O PS chegou a terceiro partido porque depois de uma governação que terminou de uma forma infeliz se apresentou aos portugueses com um discurso radical e com uma postura radical que não criou confiança em muitos portugueses, alguns deles eleitores tradicionais do PS.“

Subscreveria a reforma laboral do Governo?
Esta reforma laboral não é uma reforma laboral. É um ajuste de contas ideológico. Não vi anunciado na campanha eleitoral, nem ninguém sentiu necessidade de alterar as leis laborais. A reforma laboral preocupa-se com o inverno demográfico em que nós estamos a viver? Não. A reforma laboral preocupa-se com termos os jovens com mais rendimentos e, por isso mesmo, evitar emigrar? Não. A reforma laboral preocupa-se com o aumento da esperança de vida, com as pessoas a ficarem, digamos, com uma percentagem de 40% dos portugueses acima dos 55 anos? Não. Preocupa-se em encontrar uma solução que possa, a bem do país, permitir que, de uma forma porventura em tempo parcial, estas pessoas possam continuar a colaborar no mundo do trabalho? Não. Então não é uma reforma que olhe para o futuro.

Os eleitores ainda veem o PS como um partido reformista
O PS fez, ao longo da sua vida de governação, múltiplas reformas. Mas, de facto, é aquilo que diz a moção de José Luís Carneiro, candidato a secretário-geral, o que o PS propõe é apresentar aos portugueses uma proposta reformista para Portugal. E para isso, irão estar no congresso muitos cidadãos que, não sendo militantes do PS, elaboram e nos ajudam a formular políticas. É preciso trazer para o pensamento político as centenas de milhares de portugueses que participam, por exemplo, nas listas autárquicas e que não são militantes do PS. É preciso voltar a dinamizar o gabinete de estudos, fechado durante anos, para produzir pensamento político. Há  um trabalho que tem vindo a ser preparado, mas que verdadeiramente começa agora, com a legitimidade que o Congresso dá de apresentar aos portugueses uma proposta reformista. Mas, digamos, na tradição do que o PS sempre fez. Dois exemplos: que partido promoveu revisões constitucionais, a reforma essencial à dignidade da pessoa humana, que foi o Rendimento Social de Inserção para os mais desfavorecidos?

O PS precisa urgentemente de modernização? Que mudanças são prioritárias na organização do PS?

Dois ou três exemplos. É preciso termos a caracterização exacta dos nossos militantes. Infelizmente, ainda não temos. É preciso reforçar a dimensão ética da atividade política através de mecanismos internos permanentes e não episódicos, nos momentos eleitorais. É preciso compatibilizar, de alguma forma, as estruturas com as novas realidades da organização do território. Com as CCDR com poderes reforçados, os partidos, o Partido Socialista no caso, têm de ter uma organização que interaja com estas novas realidades. E é preciso também, para a produção da política, ter um gabinete de estudos que funcione. Aliás, a moção de José Luís Carneiro propõe que esse gabinete de estudos passe a chamar-se Instituto Jorge Sampaio. Portanto, do ponto de vista interno, isto é essencial. E é também essencial ter, em paralelo com o Congresso, um conjunto de conferências em que vão ser debatidos vários temas, alargados à sociedade civil. O PS, para crescer, para se afirmar, tem de ter essa dimensão da sociedade civil. Portanto, do ponto de vista interno, vamos ter um Congresso de grande afirmação. Do ponto de vista da relação com os portugueses, o que vai sair do Congresso é, digamos, a afirmação do secretário-geral como a alternativa clara de poder, das suas propostas moderadas, que assentem num Estado forte para proteger os fracos, numa solidariedade entre a sociedade portuguesa e também no apoio ao desenvolvimento, à iniciativa privada e às empresas como motor de desenvolvimento, e com uma grande exigência de um crescimento dos salários médios dos portugueses.

Há um ano, com a hecatombe do PS nas legislativas, José Luís Carneiro era visto por muitos militantes como líder a prazo, de transição. Como o vê hoje?
É um líder para ficar. E mais: estou ciente de que muitas destas variações e divergências que temos visto apenas resultam da preocupação de ser perceptível que José Luís Carneiro é um líder para ficar e não um líder transitório, como alguns vaticinaram. De facto, ao longo deste tempo, desenvolveu uma relação com os portugueses. Os portugueses apreciam a sua forma de estar e de agir.

O que poderão os portugueses ver nele?
Alguém com clareza no que diz, clareza na relação com os portugueses e que os portugueses já perceberam que podem contar com ele, sem radicalismos, para ajudar a melhorar a vida dos portugueses.

O PS tem sido um partido de “nins” e de “ses” a ter em conta a moção setorial assinada por vários dirigentes do partido?
A política, como a vida, não é a preto e branco, e a vida política portuguesa e o país que nós temos hoje foram construídos ao longo destes 50 anos com muitos acordos entre vários partidos. Defendo que a partir da divergência e das diferentes opiniões se construam  soluções comuns para algumas questões. E soluções comuns só o serão se tiverem a lucidez de compatibilizar, na medida do possível, as preocupações de cada um. Não pensamos todos da mesma maneira. O PS tem um pensamento há muitas décadas. Se o PSD quer ter soluções consensuais com o PS, soluções negociadas com o PS, tem de perceber o que nós pensamos. E não pode fazer finca-pé exclusivo no seu pensamento. E, aliás, essa é a tradição do país: o que é estrutural foi feito com acordos.

É um líder para ficar. E mais: estou ciente de que muitas destas variações e divergências que temos visto apenas resultam da preocupação de ser perceptível que José Luís Carneiro é um líder para ficar e não um líder transitório, como alguns vaticinaram.“

Que acordos são hoje mais urgentes?
Não lhe chamaria acordos de regime. O que diria é que em cada momento há matérias que se colocam aos políticos para decidir e para, digamos, tomar posição, e elas são claras: a saúde, a justiça, o problema dos jovens, a educação. Isso traduz-se em propostas que têm de ser apresentadas na Assembleia da República e que têm de ser negociadas entre os principais partidos, eu diria entre todos os partidos.

Há linhas vermelhas entre PS e CHEGA?
O PS e o CHEGA não têm nada a ver. São duas coisas diferentes. Quer dizer, é a diferença entre democracia e não democracia. Portanto, não. Isso é diferente de diabolizar o CHEGA. O CHEGA só se combate também tirando aquilo que o alimenta, e aquilo que o alimenta é algum descontentamento. Enfim, esse é o combate que temos de fazer. Aí o CHEGA também deixa de ter relevância.

Luís Parreirão: “Perturba-me esta vertigem de afirmar divergências a 48 horas do Congresso” 2026 IUSTITIA.BG – Investigations 2009-2025 2026-03-26 08:58:18

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