O Relatório Anual de Segurança Interna (RASI) revelou um aumento de 6,7% nas participações por crimes de ódio em Portugal. Pode, assim, pensar-se que há mais ódio na sociedade, mas essa poderá não ser, necessariamente, a razão. “O crescimento das denúncias poderá resultar, sobretudo, de fatores que tornam estes comportamentos mais visíveis e identificáveis”, começa por dizer ao DN o investigador Pedro Liberado.
Na perspetiva do especialista, que investiga a radicalização e o extremismo, a maior consciencialização sobre os crimes de ódio e a normalização do discurso de exclusão podem contribuir para explicar este aumento. “Há um fenómeno que tem sido muito discutido: a normalização do discurso de exclusão (potencialmente conducente ao ódio), sobretudo no espaço digital. Quando o ódio se torna mais visível (porque circula mais, porque é amplificado por algoritmos, porque é replicado em comunidades online…), também se torna mais provável que seja denunciado. A visibilidade pode gerar participação”, argumenta Pedro Liberado, diretor de investigação e coordenador do portefólio de Radicalização, Extremismo Violento e Crime Organizado na IPS_Innovative Prison Systems.
Há ainda outra hipótese: a maior preparação das autoridades para lidar com estes casos, o que leva as vítimas a denunciar. As tensões sociais, geopolíticas e económicas são o pano de fundo destes crimes, mas não só. Há também “a insegurança percecionada e discursos públicos mais agressivos”. E, nada de novo, mas não menos importante, o facto de, “em períodos de incerteza, as pessoas tenderem a procurar explicações simplificadas, o que facilita a adesão a narrativas de culpa dirigidas a grupos específicos”. A este cenário soma-se a circulação de desinformação e teorias da conspiração, que alimentam perceções de ameaça e reforçam estereótipos.

O investigador não tem dúvidas de que o facto de a sociedade estar hoje altamente digitalizada, com as redes sociais, multiplica o fenómeno. “As redes sociais funcionam como aceleradores do discurso de ódio. A lógica algorítmica privilegia conteúdos polarizadores, porque geram mais interação, e isso cria ambientes onde a agressividade se normaliza”, explica. “Este ecossistema digital não cria o ódio, mas multiplica-o, normaliza-o e torna-o mais visível”, acrescenta.
Hoje, os grupos extremistas fazem a cooptação de membros em espaços que podem não ser vistos como perigosos. “Muitos jovens entram em contacto com comunidades extremistas através de espaços aparentemente inofensivos, como fóruns de gaming ou servidores privados”, detalha. É para aqui que Portugal precisa de olhar: para a prevenção, em especial junto dos jovens.
O RASI refere, inclusive, que é “preocupante” o facto de muitos dos suspeitos destes crimes serem menores de 18 anos, alvos de grupos radicalizados, e de não poderem ser julgados criminalmente. “A prevenção eficaz começa muito antes de qualquer sinal de radicalização. É essencial criar espaços seguros de diálogo, promover competências socio-emocionais e trabalhar a literacia digital e informacional desde cedo”, ressalta. “Os jovens precisam de aprender a reconhecer manipulação, desinformação e narrativas de exclusão, incluindo as de índole extremista, e a saber lidar com esse conteúdo”, acrescenta.
E como fazer esta prevenção? O trabalho é conjunto e desenvolve-se em várias frentes. “Programas de mentoria, atividades comunitárias e abordagens restaurativas reforçam o sentido de pertença e a autoestima, sendo exemplos de iniciativas que reduzem vulnerabilidades. A intervenção deve ser intersetorial, envolvendo escolas, famílias, serviços sociais e forças de segurança de forma coordenada”, diz Pedro Liberado. É também importante referir que esta é uma tendência global, “onde a combinação de frustração socioeconómica e a fragilidade de competências de resiliência e pensamento crítico em alguns segmentos da população cria um terreno fértil para comportamentos discriminatórios”, conclui.
Polarização e redes sociais explicam aumento dos crimes de ódio 2026 IUSTITIA.BG – Investigations 2009-2025 2026-04-11 09:07:13
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