
A Paramount Skydance chegou a acordo com 12 estados norte-americanos e com o sindicato dos argumentistas para pôr fim às ações judiciais que ameaçavam travar a compra da Warner Bros. Discovery. O acordo abre caminho a uma operação avaliada em 110 mil milhões de dólares (cerca de 94 mil milhões de euros), incluindo dívida, e junta dois dos maiores estúdios de Hollywood. A Reuters descreve a operação como uma das maiores fusões da história dos media.
Para conseguir ultrapassar o último grande obstáculo legal à operação, a Paramount aceitou aumentar a produção cinematográfica nos Estados Unidos, proteger postos de trabalho, manter separados durante cinco anos os processos de negociação dos canais de televisão por cabo e criar um conselho independente para acompanhar a independência editorial da CNN e da CBS. O acordo ainda precisa de aprovação judicial, mas levanta a principal barreira legal à transação.
O acordo anunciado na segunda-feira 21 de setembro resulta de negociações entre a Paramount e uma coligação liderada pelo procurador-geral da Califórnia, Rob Bonta. Em julho, 12 estados tinham processado a Paramount para tentar impedir a aquisição, alegando que a concentração poderia reduzir a concorrência, diminuir a produção e aumentar os preços para os consumidores. A Paramount rejeitou essas acusações. A Procuradoria-Geral da Califórnia confirmou que o processo terminou através de um acordo com duração de cinco anos e sujeito a execução judicial.
“Este acordo não é um voto de apoio a esta fusão”, afirmou Bonta na apresentação do acordo, citado pelo Los Angeles Times. O procurador-geral acrescentou que as condições negociadas respondiam às preocupações levantadas no processo judicial.
A solução encontrada é, por isso, menos uma separação de ativos do que um conjunto de compromissos impostos à futura empresa. A Paramount não terá de vender as principais redes de televisão por cabo da Warner Bros. Discovery, uma das possibilidades que chegou a ser discutida durante o processo. Em contrapartida, a empresa terá de cumprir regras específicas nas negociações com os distribuidores e poderá enfrentar a alienação de vários canais se não respeitar esses compromissos.
Por exemplo, a empresa terá de garantir a estreia de pelo menos 30 filmes por ano nos cinemas durante os dois primeiros anos após a fusão. Nos três anos seguintes, a meta sobe para 32 filmes anuais. Pelo menos quatro terão de ser produções independentes. Se a Paramount falhar a meta, terá de pagar 30 milhões de dólares (cerca de 25,6 milhões de euros) por cada filme em falta e poderá ficar sujeita à alienação da Miramax. Ou seja, em Hollywood, desta vez até o número de filmes tem cláusula penal.
Há também um compromisso financeiro significativo. A Paramount terá de gastar pelo menos mais 300 milhões de dólares (cerca de 256 milhões de euros) por ano em produção cinematográfica nos Estados Unidos durante cinco anos, face aos níveis de 2025. No total, são pelo menos 1,5 mil milhões de dólares (cerca de 1,28 mil milhões de euros) de investimento adicional. A empresa terá ainda de criar um fundo para apoiar trabalhadores afetados pela fusão, no valor de 47,5 milhões de dólares (cerca de 40,5 milhões de euros) ao longo de cinco anos.
O acordo inclui uma dimensão particularmente sensível: a informação. A futura empresa controlará simultaneamente a CBS News e a CNN, duas marcas com enorme peso no mercado norte-americano. Para responder às preocupações sobre a independência editorial, será criado um conselho independente de supervisão editorial destinado a proteger a autonomia das duas redações e os padrões de informação factual. O conselho será composto por cinco jornalistas, segundo o Hollywood Reporter.
O problema da concentração de poderes
A medida não encerrou, contudo, o debate sobre a concentração dos meios de comunicação. O The Guardian relata que profissionais e organizações do setor questionaram a eficácia do novo mecanismo de supervisão editorial, enquanto outros críticos continuam preocupados com a concentração de poder resultante da operação. A Reuters também dá conta das críticas de opositores que consideram que o acordo oferece concessões insuficientes e não protege adequadamente a concorrência e os empregos. Estas são posições dos críticos da operação, e não uma conclusão independente sobre os efeitos do acordo.
Outra condição diz respeito à televisão por cabo. Durante cinco anos, os canais que pertenciam à Paramount e os que pertenciam à Warner Bros. terão de ser negociados separadamente com os distribuidores. O objetivo é impedir que a nova empresa utilize a dimensão conjunta do seu portefólio para eliminar a concorrência nas negociações com operadores de televisão paga.
O Departamento de Justiça norte-americano já tinha encerrado em junho a sua investigação antitrust à operação, concluindo que, com base nas provas recolhidas, a fusão não era suscetível de prejudicar a concorrência ou os consumidores nos mercados de streaming, televisão linear ou produção e distribuição de filmes. A ação dos estados era, por isso, o principal obstáculo que permanecia em aberto. A Reuters refere que o acordo agora alcançado com os 12 estados elimina esse obstáculo.
Também a Writers Guild of America, o sindicato dos argumentistas, chegou a acordo com a Paramount e desistiu do processo. O sindicato mantém preocupações sobre o impacto da concentração na indústria, mas reconheceu que prosseguir sozinho uma longa batalha judicial teria custos elevados. A Associated Press refere que a WGA continua a considerar que a fusão poderá prejudicar os argumentistas e a indústria, apesar de ter decidido chegar a acordo.
A urgência para chegar a um acordo aumentou nas últimas semanas. Se a compra não estiver concluída até ao final de setembro, a Paramount ficará sujeita a um mecanismo de compensação aos acionistas da Warner Bros. Discovery que acrescenta cerca de 7 milhões de dólares por dia ao custo da operação. A pressão para fechar o negócio antes do prazo ajuda a explicar a intensidade das negociações dos últimos dias.
A operação começou por ser anunciada em fevereiro, com a Paramount a oferecer 31 dólares por ação da Warner Bros. Discovery e a atribuir à empresa um valor empresarial de 110 mil milhões de dólares. O negócio colocou a Paramount numa corrida pelo controlo da Warner e acabou por prevalecer sobre outras propostas.
Se a operação for concluída, David Ellison ficará à frente de uma empresa que reúne dois grandes estúdios de cinema, duas plataformas globais de streaming, importantes redes de televisão e algumas das maiores bibliotecas de conteúdos de Hollywood. A combinação junta Paramount+, HBO Max, CBS, CNN, Warner Bros., HBO, DC, Nickelodeon e outras marcas e canais num único grupo.
É uma transformação de dimensão rara numa indústria que, depois da explosão do streaming, tem procurado novas formas de ganhar escala e reduzir custos. O negócio junta ainda dois dos principais estúdios de Hollywood e concentra num mesmo grupo uma fatia significativa da produção cinematográfica, televisão, streaming e informação nos Estados Unidos.
A questão agora já não é tanto se a Paramount poderá comprar a Warner, mas como ficará o novo gigante quando as duas empresas passarem efetivamente a funcionar como uma só. Antes disso, falta ainda a aprovação judicial. Depois, começará a parte provavelmente menos cinematográfica de todas: integrar duas empresas gigantes sem transformar o guião numa sequela interminável.
Paramount desbloqueia compra da Warner e prepara novo gigante de Hollywood 2026
IUSTITIA.BG – Investigations 2009-2026 2026-09-22 08:07:35
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