Já vamos entrar na reta final do verão e, por mais que eu viva há quase dez anos em Portugal, ainda vejo com alguma surpresa um comportamento que por aqui é cultural. Entre julho, agosto e setembro, muitas empresas simplesmente encerram as suas atividades durante duas, três, quatro semanas. E não se trata apenas de pequenos negócios. Muitas vezes, são empresas de certo porte, com dezenas de funcionários.
O fato de isso me causar certa estranheza — afinal, uma empresa fechada é geralmente sinônimo de uma queda brusca ou total da faturação — não quer dizer que seja um erro. Afinal, em causa está a possibilidade de permitir que patrões e funcionários descansem e aproveitem um pouco o período mais alegre do ano: sol, calor, pouca chuva e férias escolares.
A verdade é que há situações e marés que não valem a pena nadar contra. A solução é compreender o ritmo e adaptar as exigências, os comportamentos e as obrigações. Para se ter uma ideia, a situação é tão séria que até as Finanças relaxam os prazos nesse período.
E não há muito para onde correr. Enquanto empresário, o fato de não aderir ao movimento não significa que o seu negócio poderá funcionar a 100%. Principalmente durante o mês de agosto e a primeira semana de setembro, os orçamentos demoram mais tempo a chegar, muitas entregas são suspensas, as negociações ficam em compasso de espera e a contratação de um prestador de serviços torna-se uma missão quase impossível.
Para quem chega de fora e pretende empreender, esse detalhe é muito mais do que uma mera curiosidade. Essa situação deixa uma mensagem clara e muito importante: conhecer a legislação e cumprir os procedimentos burocráticos de onde se pretende expandir é apenas uma parte do processo. É fundamental compreender o ritmo do mercado, a forma como fornecedores e parceiros se relacionam, o comportamento do consumidor e os hábitos culturais que permeiam as relações comerciais locais. Ignorar essas diferenças geralmente conduzirá o empreendedor por um caminho muito mais tumultuado, com obstáculos que dificultarão o alcance dos objetivos no prazo previsto.
Isso não significa que todas as práticas locais devam ser aceitas sem qualquer análise crítica. Significa, reconhecer que entrar em um novo mercado exige capacidade de observação e adaptação. Não basta transportar para Portugal a mesma estratégia utilizada no Brasil, por exemplo, e esperar resultados idênticos. É preciso saber se adaptar e entender que, no fim das contas, não se trata de dizer quem está certo ou errado, mas compreender que cada mercado tem seus hábitos, seu ritmo e sua própria forma de funcionar.
O ritmo português de fazer negócios 2026
IUSTITIA.BG – Investigations 2009-2026 2026-08-24 14:30:25
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