“Aprecio quem se afirma com urbanidade, discute de forma civilizada, não insulta, e não quem acha que precisa de ser rude, de desprezar os adversários, de acusar a generalidade dos Portugueses de não saber escolher os seus representantes. (…) Aprecio quem deseja unir-nos, ajudar-nos a juntos enfrentar desafios e dificuldades. Não quem nos divide em puros e impuros, em bons e maus, em santos e pecadores. E, já agora, acredita que a maioria é impura, má e pecadora.”
Foi assim que há dois meses, antes da segunda volta das presidenciais, a histórica do PSD Leonor Beleza, partido no qual milita desde os alvores de 1974, explicou por que motivo iria votar em António José Seguro e não no seu opositor.
Opositor a quem, sem o nomear sequer, descrevia como alguém voluntariamente rude, que não sabe debater de forma civilizada, que não respeita nem valoriza todos os portugueses, que “despreza e condena todos os que servimos o nosso país”; um radical que usa “o ruído como arma política” e acusa os portugueses de “não terem sabido escolher os seus representantes durante 50 anos, desde que temos essa liberdade.”
É uma descrição repugnada, que faz questão de frisar a diferença entre a liberdade política pós-1974 e o regime ditatorial que a antecedeu, e o facto de André Ventura, ao vilipendiar todos os políticos eleitos em democracia, estar assim a passar um atestado de incapacidade a quem os elegeu.
Uma descrição corajosa e indignada que, desde logo, contrasta com a não posição do seu partido, cuja liderança decidiu não optar entre os dois candidatos, passando assim a mensagem de que tanto lhe fazia.
Uma descrição a condizer com a imagem de uma mulher a quem, muitas vezes a primeira num mundo então só de homens e não raro bem brutos, deram a certa altura o epíteto de “dama de ferro”; uma mulher que em 2018, numa iniciativa do PSD para jovens, incitava os ouvintes a “combater de maneira intensa” quem “se opõe aos direitos humanos, à paz e à democracia”, proclamando: “Não estou preparada e não quero ter de me compatibilizar com quem tem diferenças a esse nível comigo”.
É porém esta mesma mulher, a que descreve Ventura como um extremista perigoso que escolhe a boçalidade, e exorta os jovens a lutar contra aquilo que ele, apoiante fervoroso de Trump e do putinista Orbán e saudosista de Salazar, representa, a mulher que, em entrevistas ao DN em 2005 e 2016, alertava para os “riscos do retrocesso” no campo dos direitos humanos e alertava para a necessidade de continuar a lutar porque “não dá para descansar, pode-se sempre voltar atrás”, a surgir agora como primeiro nome de uma lista conjunta de PSD e Chega para o Conselho de Estado, na qual figura André Ventura.
Estará afinal, pelos vistos, preparada para se compatibilizar com quem evidencia, face a ela, diferenças de tal monta.
Para além da desilusão que esta cedência de Leonor Beleza representa para muitas e muitos que lhe admiravam não só a fibra como o percurso de orgulhosa feminista — um dos seus primeiros trabalhos foi na então Comissão da Condição Feminina, hoje Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género, tendo participado na revisão do Código Civil da ditadura para lhe extirpar o caráter patriarcal —, anote-se o aspeto simbólico de ver alguém que fundou o PSD com Sá Carneiro a dar assim a mão ao partido de Ventura.
Porque se era já mais que evidente que o “não é não”, jura solene eleitoral de Montenegro, nada valia; que, incrivelmente, nem o facto de o Chega ter afixado cartazes a chamar-lhe corrupto (cartazes contra os quais, por os considerar caluniosos, interpôs até uma providência cautelar) e de Ventura ter apelidado o PSD de “prostituta política” impediu as lideranças de se entenderem e o Governo de fazer bandeira dos temas da extrema-direita, da imigração e da “insegurança” à “ideologia de género”, ver Beleza a aceitar surgir, numa lista, ombro a ombro com Ventura é a certificação de que o castelo caiu mesmo.
Bem pode então Cavaco Silva, no seu último artigo de opinião, bradar que o Chega é “uma força política destituída de credibilidade política”, que tem como marca distintiva a retórica da confrontação e o discurso teatral do ódio, do insulto, da calúnia e da mentira”. Bem pode o ex-Presidente da República certificar que, “tendo conhecido Sá Carneiro” e “estudado os seus textos sobre o exercício do poder em Portugal”, está “absolutamente convencido de que ele lutaria com todas as suas forças contra o discurso e as ideias do líder do Chega”.
Leonor Beleza, a Leonor Beleza que conta que em 1974 Sá Carneiro lhe apareceu e perguntou “vamos fundar um partido, queres vir?”, deixou cair os braços nessa luta. E com tanta pontaria e azar quando, na Hungria, o centro direita acaba de derrubar um dos ídolos de Ventura. Que triste.
Nota: Tu quoque, a expressão latina usada no título, significa “até tu”, ou “também tu”.
Jornalista
Tu quoque, Leonor Beleza 2026 IUSTITIA.BG – Investigations 2009-2025 2026-04-14 00:56:41
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