Nos seus 45 dias de duração, a guerra no Irão já levou a União Europeia a gastar mais 22 mil milhões de euros em importações de combustíveis fósseis do que faria num período normal. Para contextualizar, são quase 8% de toda a riqueza que Portugal produz num ano.
Este valor, é claro, não representa todo o impacto que o conflito teve nas economias europeias. Os efeitos da subida do petróleo e do gás natural – uma reação natural dos mercados ao bloqueio do Estreito de Ormuz – alastraram-se à logística e, consequentemente, aos produtos de consumo, incluindo os alimentos. O comércio de fertilizantes (um terço dos quais passa pelo estreito) também foi afetado, o que ameaça a produção agrícola europeia e a segurança alimentar. Há cortes no fluxo de hélio, alumínio, metanol, enxofre e outras matérias-primas necessárias em indústrias de alta tecnologia. E, transversal a tudo isto, está a gerar-se uma espiral inflacionista.

É óbvio que a visível fragilidade da Europa a estes choques (que não é diferente de várias outras regiões do mundo) preocupa o Executivo comunitário.
Na mensagem em que revelou o valor a mais pago pela Europa pela guerra, o comissário europeu para a Energia e Ambiente, Dan Jørgensen, disse que é preciso garantir que a UE se torna “verdadeiramente independente em termos energéticos”. Ou seja, é preciso “mudar o rumo das coisas”.
A questão que se levanta é que Portugal já tinha começado a mudar de vida, a descarbonizar a sua economia, a libertar-se da dependência dos hidrocarbonetos.
No ano passado, as fontes renováveis (com especial relevância para as eólicas e hídricas) abasteceram 68% do consumo elétrico nacional. É uma percentagem impressionante, ainda que represente uma ligeira descida face aos 71% registados em 2024, devido ao aumento recorde do consumo total (53,1TWh), que obrigou a um maior recurso a centrais a gás natural.
Mas esta percentagem não conta a história toda. Para obter o Consumo Final Bruto de Energia de qualquer país é preciso levar em conta o gasto energético em transportes e no aquecimento/arrefecimento.
É por isso que chegamos à conclusão de que a quota de renováveis em TODO o nosso consumo de energia é de aproximadamente 36,5%. Ainda assim é uma marca que atira Portugal para o sétimo lugar nos países da UE com maior peso de renováveis no consumo final total.
A palavra “transportes” é chave. O esforço de Portugal na independência e sustentabilidade das suas fontes de energia, uma aposta que o contribuinte português pagou (e bem) desde o início dos anos 2000, não foi acompanhado por uma eletrificação da sua frota automóvel (seja no transporte privado, seja nos pesados de mercadorias).
Não é necessariamente culpa de ninguém. Talvez a tecnologia das baterias ou as redes de distribuição não estivessem ainda desenvolvidas ao ponto de serem atraentes para os cidadãos e os agentes económicos. Talvez não tenha havido tantos incentivos à substituição de carros e camiões a combustão por elétricos como foram dados aos investidores e eletroprodutores.
Independentemente de quem poderia ter feito mais ou melhor, o nosso ponto nevrálgico, onde se cruza a estratégia de energia e a decisão política não se chama Ormuz, chama-se “eletrificação em massa da nossa frota” de distribuição: de pessoas – no trajeto de e para o trabalho ou para lazer; turistas ou estudantes – e de bens.
Quando o comissário Jørgensen revelou que, na próxima semana, Bruxelas irá “apresentar novas medidas para responder à crise energética”, espero que uma delas seja uma política robusta e concertada de eletrificação do transporte rodoviário e ferroviário. Só assim poderemos evitar novos choques energéticos no futuro.
É urgente eletrificar a frota rodoviária nacional 2026 IUSTITIA.BG – Investigations 2009-2025 2026-04-13 23:09:00
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