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Javier Colomina: “O Sahel é um poço sem fundo de problemas onde encontramos o pior da humanidade” 2026

Юстиция Иванова by Юстиция Иванова
Maio 6, 2026
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Site de jornalismo investigativo com investigações aprofundadas, histórias de interesse público, notícias e reportagens jornalísticas selecionadas

Uma seleção de artigos investigativos e publicações jornalísticas. A imagem destaca o foco do site no jornalismo investigativo e em temas de interesse público.

Está a Europa preparada para garantir a sua defesa se o presidente dos EUA, Donald Trump, levar a cabo a sua ameaça de deixar a NATO?

Em primeiro lugar é preciso dizer que Trump sempre esteve connosco, extremamente comprometido com a NATO e com o Artigo 5.º. Temos tido reuniões com ele desde a sua vitória nas eleições de novembro de 2024. O primeiro líder europeu a ir a Mar-a-Lago foi Mark Rutte [secretário-geral da NATO]. E desde esse primeiro encontro até às muitas reuniões que tivemos no último ano, ele sempre se mostrou empenhado com a organização que represento. Ao mesmo tempo, Trump foi muito claro desde o início. Queria que os aliados europeus e o Canadá assumissem a liderança na defesa convencional europeia e fizessem mais pela sua própria defesa, investindo mais, tendo mais capacidades, sendo mais capazes em geral. E foi exatamente isso que conseguimos em Haia, no verão de 2025, quando aprovámos o acordo histórico dos 5% do PIB em defesa. Desde então, temos vindo a trabalhar no desenvolvimento de capacidades e no reforço da capacidade europeia. Mas sempre no âmbito da NATO. E não acho que alguém esteja a questionar isso. Todos com quem tenho falado querem uma NATO forte e um pilar europeu forte dentro da NATO.

Diz que Trump não quer sair, mas ele ameaça fazê-lo. Repito: estará a Europa preparada

Bem, como disse, não acho que isso vá acontecer. E penso que o que temos de ter sempre presente é o vínculo transatlântico. Há 76 anos que temos vindo a construir uma aliança que tem sido extremamente bem-sucedida na defesa de mais de mil milhões de habitantes na Europa e em 32 países. E os europeus estão a fazer mais, estão a gastar o dobro do que gastavam há cinco anos. Boa parte disso deve-se à pressão exercida por Trump. Não creio que devamos considerar que os europeus são capazes de se defender sem os EUA, porque, na minha opinião, essa não é uma perspectiva viável. Nesta fase, o que é capaz de defender a Europa e toda a área euro-atlântica é a NATO. Se retirarmos apenas um elemento da NATO, e um particularmente proeminente como os EUA, então toda a estrutura que temos vindo a construir ao longo de 76 anos provavelmente não funcionará. De facto há desilusão por parte de Washington devido à forma como os aliados europeus reagiram inicialmente à crise do Estreito de Ormuz. Mas, ao mesmo tempo, os europeus começaram a agir como os EUA desejavam. Estão a trabalhar na Coligação dos Dispostos, liderada pela França e pelo Reino Unido. Houve pressão dos EUA, mas também uma boa reação dos europeus e do Canadá.

Se fossem as mesmas críticas de Trump, mas sem a guerra na Ucrânia, teríamos começado a investir?

Acho que é uma combinação de tudo. Os 5% são a resposta ao contexto da segurança mais difícil do que qualquer outro que tenha visto nos meus 25 anos de carreira. Isso é claro. Ao mesmo tempo, também é verdade que os europeus começaram a gastar mais depois de fevereiro de 2022, quando a guerra começou. Mas quando Trump chegou à Casa Branca, havia muitos deles que não estavam nos 2%. Portanto, é uma combinação da pressão que os EUA exerceram e também do contexto de segurança atual. Voltando à sua primeira questão, sobre se os europeus são capazes de se defender sem os EUA. Essa é uma hipótese que prefiro nem sequer abordar. Não creio que os europeus de hoje estivessem preparados para se defenderem sem as capacidades, os recursos, a inteligência e tudo o que os EUA oferecem. Isto para não falar da dissuasão nuclear, que é a essência da nossa própria dissuasão.

Há dias foi revelado um e-mail do Pentágono que sugeriu que os EUA talvez não estejam a pensar em abandonar a aliança, mas poderiam agir contra países que consideram que não estão a fazer o suficiente, como a Espanha. A NATO já afirmou que ninguém pode expulsar um país. Mas, nesta disputa entre Espanha e EUA, quem sairá vitorioso?

Não vou comentar as declarações dos líderes dos países que fazem parte da aliança. O que posso dizer é que deixámos bem claro que não há suspensão nem expulsão no Tratado de Washington. E, ao mesmo tempo, precisamos que os 32 aliados façam o que estão a fazer. E a Espanha aumentou as suas despesas com a defesa em quase 12 ou 13 mil milhões de dólares nos últimos 12 meses. Precisamos que todos os aliados trabalhem em conjunto. Precisamos de um pilar europeu mais forte na NATO, mas precisamos do vínculo transatlântico para continuarmos a defender-nos da forma como temos feito nos últimos 76 anos.

O Artigo 5.º é a espinha dorsal da NATO, mas não diz o que cada um tem que fazer para ajudar. A ajuda pode ser, por exemplo, com uniformes…

O Artigo 5.º diz que um ataque contra um é um ataque contra todos. Mas não é automático, é uma decisão política. Mas primeiro é preciso realizar consultas e depois invocar o Artigo 5.º. E o Conselho do Atlântico Norte precisa de o aceitar. E depende do que se pedir. A única vez que foi invocado foi após o 11 de Setembro. Os Estados Unidos, na altura, solicitaram apenas apoio político. Depois começou a Guerra contra o Terror e, claro, muitos aliados envolveram-se em diferentes atividades, em particular no Afeganistão.

Trump critica o pouco envolvimento dos aliados na guerra no Irão. Mas haverá um papel para a NATO após o fim da guerra

Penso que o secretário-geral foi muito claro. Se pudermos ser úteis e os aliados quiserem que tenhamos um papel, seremos úteis. A NATO é uma aliança muito capaz. Podemos fazer muitas das coisas de que todos falam. Mas, para que isso aconteça, os aliados precisam de perceber que precisamos de ter um papel, que podemos ser úteis a desempenhar esse papel. Neste momento, ainda não chegámos lá. Nesta fase, estamos apenas a incentivar os europeus a fazerem mais. Mas estaremos prontos para ajudar se chegar a altura.

Falou da meta dos 5%. Há países que não concordam com isso. A questão, por vezes, não é gastar mais, mas sim gastar melhor. Como podemos fazer isso?

Estes 5% foram um acordo assinado em Haia, baseado num contexto de segurança mais difícil do que nunca, com desafios e ameaças vindas de todas as direções estratégicas: do sul, do norte, do leste, de todo o lado, com uma guerra aberta na Ucrânia, com uma guerra aberta atualmente no Irão, com um conflito aberto em Gaza, com uma situação muito difícil no Mediterrâneo, particularmente vinda do Sahel, provavelmente a região mais difícil do mundo. Por causa disso, dissemos aos aliados que precisamos de gastar mais, principalmente estes 3,5% em despesas essenciais com a defesa. Os outros 1,5% são para despesas relacionadas. No final do dia precisamos, claramente, de mais dinheiro. Mas é preciso saber o que fazer com esse dinheiro. Hoje, mesmo que disponibilizemos muito dinheiro, os europeus não são capazes – ainda não – de produzir aquilo de que necessitamos e, consequentemente, de gastar esse dinheiro de forma inteligente. As indústrias de defesa na Europa estão muito fragmentadas. Precisamos de mais escala. Precisamos de mais urgência na forma como produzem. Precisamos que produzam de forma rápida, massiva e barata. É isso que os ucranianos estão a fazer. Até os americanos estão a aprender com isso. E os americanos não têm a fragmentação que nós temos. A sua indústria de defesa é sólida e unificada. A unidade na Europa também precisa de ser construída. E para isso, contamos com as decisões tomadas por todos os nossos aliados europeus, em particular pela União Europeia. A União Europeia tem o seu próprio plano de rearmamento, o REARM, que implica investimentos consideráveis. 800 mil milhões de euros, o que é um valor enorme. Temos de unir todos os nossos esforços e continuar a trabalhar na indústria de defesa, que, na minha opinião, é uma das principais prioridades para a próxima cimeira em Ancara.

O que podemos esperar desse encontro em julho?

Penso que a cimeira de Ancara será uma cimeira muito, muito relevante. Histórica, como sempre dizemos. Mas, tendo em conta as dificuldades da situação, acredito que as três principais prioridades definidas em Haia continuarão a ser as nossas prioridades. O investimento em defesa de 5%. A aposta na indústria de defesa, resultado desse investimento. E o apoio à Ucrânia. Continuamos a acreditar que a melhor hipótese de paz são as negociações iniciadas pelos EUA. Mas, enquanto não virmos progressos suficientes nestas negociações, acreditamos que devemos continuar a apoiá-los, durante o tempo que for necessário, e é isso que estamos a fazer. Com muitos elementos. Com uma missão (com base em Wiesbaden, Alemanha) que treina e coordena o fornecimento de equipamento, a NSATU, e com um sistema que permite aos europeus e canadianos comprarem equipamento americano que levamos aos ucranianos. Chama-se PURL, Lista de Requisitos Prioritários da Ucrânia. Só para ter uma ideia, hoje, 90% dos mísseis que os ucranianos usam para se defenderem vêm do PURL. Porque os únicos que têm stock deste tipo de mísseis em quantidade suficiente para fornecer a outros países são os americanos.

Isso não mudou por causa da guerra no Irão?

O que a guerra no Irão provou é que os stocks são limitados. E, portanto, que precisamos de produzir mais. Mas, até agora, os americanos estão a dizer-nos que não temos de nos preocupar. O equipamento necessário para os ucranianos continua a fluir para os ucranianos. Voltando a Ancara, além das três prioridades de Haia, provavelmente acrescentaria uma quarta, que seria o sul. Porque Ancara está, obviamente, no sul e porque vimos muitas coisas no sul que são motivo de grande preocupação. A guerra no Irão, os ataques aos nossos parceiros do Golfo, o próprio Irão, que se tornou uma ameaça cada vez maior e uma grande preocupação para nós em termos de proliferação de armas nucleares, mísseis balísticos e as suas atividades desestabilizadoras através dos seus aliados… Portanto, tudo isto, na minha opinião, traria também uma forte dimensão sulista à cimeira em Ancara.

Acha que isso foi negligenciado nos últimos anos por causa da guerra na Ucrânia

Tenho experiência suficiente para saber que era mais difícil trabalhar no sul há alguns anos. Mas penso que, particularmente desde o início da guerra em Gaza, os aliados decidiram que precisávamos de uma abordagem mais firme. E é por isso que há dois anos, em Washington, lançámos o Plano de Ação. Poucas semanas depois, fui nomeado Representante Especial para o Flanco Sul, o primeiro a ocupar este cargo. Assim, temos agora aquilo a que se poderia chamar uma estratégia para o Sul, para estreitar os nossos laços com os nossos parceiros. Temos parceiros desde a Mauritânia, o único do Sahel, até ao Médio Oriente e ao Golfo. E temos uma relação mais forte do que nunca com eles. Ao mesmo tempo, é evidente que a guerra na Ucrânia, em solo europeu, tem de ser a prioridade, e tem sido a prioridade. Mas o facto de ter sido a prioridade em termos geográficos não elimina o facto de termos outras prioridades. E o Sul é também uma das nossas prioridades centrais. Penso que Ancara será a cimeira perfeita para mostrar o que estamos a fazer.

A região do Sahel é complexa, veja-se a situação no Mali, com ataques jihadistas. Deveríamos estar a prestar-lhe mais atenção?

Definitivamente. E Portugal sempre apoiou muito o trabalho que tenho vindo a desenvolver e apoiou muito a ideia de olhar mais para África, para o Sahel. Lembro-me sempre da primeira entrevista que dei umas semanas depois de ter sido nomeado Representante Especial para o Flanco Sul, ao El País de Espanha. A certa altura eu disse que a guerra na Ucrânia é terrível, mas consigo ver o fim dela. Não sei quando e como vai acontecer. Mas consigo ver o fim. E acrescentei: mas não consigo ver o fim dos problemas no Sahel. E continuo sem conseguir. O Sahel é um poço sem fundo de problemas onde encontramos o pior da humanidade em termos de terrorismo, islamismo, tráfico ilícito e migração. E, de facto, precisamos de prestar mais atenção. Tenho tentado fazê-lo dentro das minhas limitações. Trabalho bastante com a União Europeia e com o antigo ministro dos Negócios Estrangeiros e da Defesa de Portugal, João Cravinho, que é um bom amigo e Representante Especial para o Sahel.

O que podemos fazer?

Há tantas coisas que devemos fazer. Seria impossível fazer todas ao mesmo tempo. Mas precisamos de retomar a nossa presença, de retomar a influência que tínhamos antes. Temos lá concorrentes geoestratégicos. A China, mas principalmente a Rússia, estão muito presentes. Portanto, há muitas coisas que devemos começar a fazer. Penso que, atualmente, todos chegámos à conclusão de que precisamos de voltar ao ponto em que estávamos há alguns anos, quando dávamos atenção ao Sahel. Penso que tanto a UE como nós estamos a tentar, pouco a pouco, voltar à normalidade. Mas não é fácil, claro.

Falou da China. É uma ameaça à segurança da NATO?

A China sempre foi um desafio à segurança para nós. Nunca chamámos a China de ameaça à segurança. Para nós, as ameaças são apenas o terrorismo e a Rússia. A China representa um desafio. Ao mesmo tempo, é um país com o qual interagimos. Temos uma política muito sofisticada, com uma perceção muito clara dos desafios da cibersegurança, nos sistemas híbridos, nas cadeias de abastecimento, nas infraestruturas críticas e em muitas outras áreas. Além disso, há a sua relação com a Rússia. Mas, ao mesmo tempo, temos muitas questões com as quais precisamos de dialogar com eles incluindo, por exemplo, em questões de controlo de armamento. Mas a União Europeia e outros, claro, o comércio e a governação global. É mais complexo do que a Rússia, que é uma ameaça, um invasor, a ameaça mais iminente e direta que temos. A China é uma coisa um pouco diferente. Mas, claro, é uma grande preocupação em termos dos desafios de segurança que representa.

A Europa tem de sair do labirinto e construir a sua autonomia

Javier Colomina: “O Sahel é um poço sem fundo de problemas onde encontramos o pior da humanidade” 2026 IUSTITIA.BG – Investigations 2009-2025 2026-05-06 23:42:00

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