Milhares de pessoas juntaram-se este sábado (24 de outubro) em Lisboa para exigir ao governo “um trabalho e uma casa para viver”, num protesto encabeçado pela Acampada de Lisboa pela Habitação e a que vários grupos, movimentos e partidos se juntaram na descida.
Uma semana após o protesto da CGTP seguido do início da acampada, realizou-se esta tarde a “Manifestação pelo Direito à Habitação”, convocada na noite de quarta-feira por decisão da assembleia popular na praça D. Pedro IV, conhecida pelo Rossio.










A poucos minutos da 15h00, ainda poucas pessoas se concentravam entre a praça do Marquês de Pombal e o início da Avenida Liberdade, onde o trânsito ainda era abundante naquela que é uma das vias mais movimentadas da cidade.
A subir a avenida, uma carrinha de caixa aberta com uma tenda na parte de trás passava ao som de música e com uma faixa bem visível de lado com uma das palavras de ordem: “Viva o Poder Popular”. Essa carrinha foi constantemente a cabeça da manifestação, de onde se ouviam gritos de “Oh Montenegro, presta atenção, as tuas casas vão virar ocupação”.
Enquanto alguns cartazes tinham sido pintados na praça de chegada, muitos empunhavam-nos já nos transportes públicos que levavam à praça do Marquês. “Egoísta é a especulação”, lia-se numa bandeira com logótipo do Bloco de Esquerda, um dos dois partidos com representação parlamentar que participou com as suas bandeiras no protesto, juntamente com o Livre.
Junto ao antigo edifício do Diário de Notícias, Cristina Mega empunha uma mensagem muito pessoal: “Mãe aflita com futuro dos filhos em Portugal”
Ao DN, Cristina, terapeuta de 64 anos conta que tem dois filhos, de 37 e 32 anos e que o mais novo ainda vive com ela em Moscavide, concelho de Loures, devido à situação da habitação.
“Não consegue, todos os amigos dele vivem em casas partilhadas ou em quartos”, queixou-se Cristina, sublinhando que o mais velho também tem dificuldades em arranjar casa, tendo de pagar no mínimo 1200 euros de renda em Moscavide e “não conseguiu comprar”.
“Essa ideia de que o governo passa, de que os jovens podem comprar casa com os seus benefícios não é real na prática, porque depois o preço das casas faz com que eles fiquem com um empréstimo ao banco, uma renda caríssima”, sublinhou.
“Sou um pouco ativista”
Apesar dos últimos dias de manifestações, este é o primeiro protesto a que esta mãe vai, mas contou que sempre demonstrou de que lado estava.
“Sou um pouco ativista nas redes sociais, estou sempre a publicar coisas para chamar a atenção e ativar a consciência das outras pessoas da minha idade”, disse, apontando que o seu cartaz serve para “apelar às mães e aos pais que saiam do sofá porque os filhos estão a manifestar-se por algo que nos bate a todos”.
Feijó, porta-voz do movimento da Acampada, contou que o momento desta manifestação é “particularmente importante” devido à “muita repressão policial sofrida nos últimos dias”, quer pela “pancada”, quer pela “pressão que a policia e o governo” têm posto em cima de nós.
Na frente da manifestação, os manifestantes gritavam a principal palavra de ordem: “Oh Montenegro presta atenção, as tuas casas vão virar ocupação”. Num grupo identificado como o Sindicato de Moradoras de Lisboa, a crítica é ao presidente do Instituto da Habitação e Reabilitação Urbana, Benjamim Pereira: “Benjamim, sacrifícios fá-los tu, nós ficamos com as casas do IHRU”.
Satya, de 22 anos, conta que foi à manifestação devido às dificuldades que está a sentir na pele, graças a problemas de saúde seus e da sua mãe, com quem vive na zona de Sintra.
“Neste momento estou desempregada, não consigo trabalhar. Fui diagnosticada com uma doença rara, portanto estou inválida neste momento. A única pessoa que trabalha lá em casa é a minha mãe e mesmo assim ela foi diagnosticada com cancro”, confessou a jovem frisando que na sua casa estão “a contar cêntimos para conseguir comprar comida”.
Não estou só pela minha casa, estou pelo resto da população e pelos meus amigos”, acrescentou, sublinhando que é “neta de Abril”. “Os meus avós maternos estiveram nas manifestações da ditadura e foram presos. O meu avô esteve na prisão cá em Lisboa. [Eles] já não estão cá e eu quero fazê-los orgulhosos neste dia”, acrescentou.
Caminhada lenta para o Rossio
A caminhada em direção ao Rossio foi lenta mas animada. Entre os gritos conviviam lemas antigos com mensagens mais recentes. “25 de Abril sempre, fascismo nunca mais”, ouvia-se num lado. Noutro, lembrava-se a mulher de 87 anos despejada em Espanha e que espoletou os protestos e a acampada madrilena na Praça do Sol: “Maricarmen presente hoje e sempre”.
Feijó contou que as principais reivindicações do movimento da acampada envolviam a nova lei das rendas que considera ser um “andar para trás” é que tentar aprovar uma legislação assim neste momento é “ofensivo”.
“Tem a ver com pôr tetos às rendas, algo que me parece uma reivindicação extremamente importante tendo em conta a realidade que nós conhecemos”, acrescentou, mencionando que defendem que “a habitação deixe de ser alvo de uma especulação maluca”.
A lei do arrendamento urbano tem sido uma das principais propostas criticadas pelos ativistas e pela oposição, principalmente o PS. Em resposta, o Governo defende que os despejos e a situação atual são resultado da lei aprovada e defendida pelos socialistas.
Questionada sobre se a oposição à lei das rendas, significava que achavam que a atual era boa, a porta-voz do movimento respondeu perentoriamente: “De forma alguma”.
“Esta lei vai na direção das leis que foram anteriormente aprovadas também”, sublinhou. “O que nós estamos a dizer é que é preciso um paradigma completamente diferente para como se lida com a habitação em Portugal”, acrescentou.
À chegada à Praça D. Pedro IV, por volta das 18h00, os manifestantes dividiram-se. Ao contrário do que acontecia na anterior acampada, o palco ficou do lado sul da praça, enquanto as tendas ficaram no mesmo sítio de antes, viradas para o Teatro D. Maria II e na ligação à praça dos Restauradores.
“A Constituição não está a ser cumprida”
Laura, aos 22 anos, estuda e trabalha para poder continuar a viver em Lisboa e diz ter ido à manifestação porque considera que “o governo não se importa connosco” e por isso, para ela, importa fazer “demonstrações de poder popular”.
“O direito à habitação é um direito básico. Neste momento a Constituição não está a ser cumprida e tendo em conta que vivemos em democracia ainda – não sei por quanto tempo – acho que enquanto pudermos sair à rua, lutar e demonstrar que somos muitos a querer os nossos direitos”, defendeu, contando que o quarto que arrenda não tem as condições necessárias e que vive “numa casa que está a cair”.
Feijó defende que a acampada vai para além das medidas exigidas pelo próprio movimento e afirmou que “não se esgota no alcance ou não das reivindicações que formam a nossa lista”.
“Na verdade, parte daquilo que a acampada tem como objetivo é algo que já se está a cumprir: a capacidade de as pessoas de se reunirem, de ensaiarem novas formas de pensar no mundo e articularem os vários coletivos que existem em Portugal, mostrando precisamente a força que nós temos quando nos organizamos popularmente”, continuou.
Para Laura, é só com demonstrações da “quantidade de pessoas que estão interessadas na mudança e que essas são mais do que suficientes para se fazerem ouvir” é que se atinge uma melhoria da qualidade de vida.
“Se for preciso fazer o 25 de Abril outra vez, faremos outra vez”, rematou ainda.
“Um trabalho e casa para viver”. Milhares voltaram às ruas de Lisboa (veja as fotos) 2026
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