Esta quarta-feira, véspera de feriado, a contestação ao pacote legislativo que o Governo preparou para rever o Código do Trabalho volta a assumir a forma de uma greve, tal como aconteceu a 11 de dezembro do ano passado, com a grande diferença de, desta vez, as duas grandes centrais sindicais do país, CGTP e UGT, não estarem unidas no apelo à participação. Independentemente de caber ao trabalhador a decisão individual de aderir ou não à greve, a escolha da UGT, transmitida ao DN pelo vice-presidente José Abraão, foi ficar em cima do muro, mesmo depois de a central ter votado contra as propostas em Concertação Social, classificando-as como “fortemente penalizadoras”. “Da nossa parte, não mobilizamos nem desmobilizamos ninguém para a greve que a CGTP vai realizar”, afirmou o também dirigente da Federação de Sindicatos da Administração Pública.
A UGT, historicamente conotada com o PS (assim com a CGTP o é em relação ao PCP), considera que o tempo é de se concentrar no diálogo com as diferentes forças políticas e apostar na via negocial no parlamento, onde a AD precisa do apoio de uma das principais forças da oposição, Chega ou PS, para fazer passar o pacote legislativo. Ao mesmo tempo, este recuo da UGT em relação ao protesto nas ruas também serve para o PS, a partir de uma posição mais confortável e menos comprometida, ficar nos bastidores a tomar o pulso à taxa de rejeição dos portugueses em relação às ideias do Governo, podendo assim ajustar a forma como fará oposição à lei no parlamento.
A posição da UGT, em não querer ir para a rua neste momento, é legítima. Isso não está em causa. No entanto, tratando-se de uma central sindical, que agrega centenas de sindicatos, nos quais estão representados muitos milhares de trabalhadores, devia esperar-se, dessa estrutura, uma indicação mais assertiva aos trabalhadores, sindicalizados ou não, do que um simples “não mobilizamos, nem desmotivamos” e o óbvio “ficará ao critério de cada trabalhador tomar as opções que achar mais convenientes”.
Para ser eficaz, uma greve tem de provocar constrangimentos – seja na capacidade produtiva das empresas ou na prestação de serviços à população –, para que o poder político entenda que conduzir o país em permanente confronto com quem o faz mover não serve os interesses de ninguém.
Mas a fatura de uma greve não é paga apenas pelo patronato. Bem pelo contrário, começa pelo comum dos cidadãos: o grevista que abdica de um dia de salário, o pensionista que vê uma consulta ser cancelada no centro de saúde, o pai ou a mãe que não tem onde deixar o filho quando a escola fecha portas ou o trabalhador que, mesmo optando por não aderir à greve, fica sem transporte público para se apresentar ao serviço. É por isso que a decisão de convocar uma greve e de apelar à adesão não pode ser tomada de ânimo leve. Feita essa ponderação, a CGTP entendeu avançar, responsabilizando-se. A UGT escolheu outro caminho, que, também de forma responsável, deveria assumir sem rodeios. Nem que fosse para evitar este ‘nim’ à greve que só baralha o trabalhador.
De que serve um ‘nim’ à greve? 2026 IUSTITIA.BG – Investigations 2009-2025 2026-06-02 23:50:00
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