Alexandre Nobre Pais dirigiu o Museu Nacional do Azulejo entre agosto de 2021 e junho de 2024, altura em que tomou posse como presidente do conselho de administração da Museus e Monumentos de Portugal. A MMP foi criada em setembro de 2023 como Entidade Pública Empresarial, substituindo a Direção-Geral do Património Cultural na sua missão de executar a política museológica, proteger as coleções nacionais e gerir um conjunto de 37 museus, monumentos e palácios nacionais. Entre eles o Mosteiro dos Jerónimos (o mais visitado do seu universo), a Torre de Belém, o Museu Nacional de Arte Antiga, o Museu Nacional de Arte Contemporânea — Museu do Chiado, os mosteiros da Batalha e de Alcobaça ou o Convento de Cristo, em Tomar.
A terminar o seu mandato, Alexandre Nobre Pais defende o novo modelo de gestão dos equipamentos culturais preconizado pela MMP. Apesar das críticas iniciais, considera que hoje é “evidente” que o modelo funciona. Sublinha que os 37 equipamentos têm autonomia de programação e que “gradualmente, queremos alargar essa autonomia a outros tipos de procedimentos”. A autonomia não será total, sublinha, porque “se cada espaço tivesse de assumir todas estas responsabilidades, precisaria de equipas maiores e de estruturas administrativas reforçadas, com mais profissionais especializados em áreas como o direito, a administração e a contratação pública. Seria uma solução financeiramente incomportável”.
Sobre o MNAA, que reabre no dia 21 de novembro após obras financiadas em 8,5 milhões de euros pelo Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), o presidente da MMP afirma que “o foco está agora na sua reabertura, não existindo para já novidades a anunciar relativas ao projeto de expansão”. A extensão do museu prevê a criação de um novo acesso a partir da Avenida 24 de Julho, e em novembro do ano passado o Estado adquiriu três imóveis nessa avenida, após uma resolução do Conselho de Ministros de janeiro de 2024 autorizar uma despesa até 10,2 milhões de euros para o efeito. Já o projeto de ampliação e renovação do Museu do Chiado, que foi abandonado em 2024 por falta de financiamento, “será retomado por fases”, diz o presidente da MMP, sem adiantar a partir de quando e com que financiamento.
Que impacto teve o PRR no universo da Museu e Monumentos de Portugal (MMP)?
Este investimento foi fundamental. O património precisava, há muito, de um investimento significativo que permitisse a sua reabilitação. É evidente que o PRR não responde a todas as necessidades, pelo que há edifícios e espaços que ficam praticamente concluídos, passando a exigir sobretudo manutenção. Noutros casos, o PRR representa apenas o início de um processo mais profundo de reabilitação. Ainda assim, sem este investimento, teríamos precisado de muitas décadas para realizar o trabalho que foi feito.
A Museu e Monumentos de Portugal teve que se coordenar com o Património Cultural, I.P. e com a Associação de Turismo de Lisboa. Gostaria de ter tido maior controle sobre algumas das obras?
A articulação correu bem, embora tenha sido muito desafiante. Se tivermos em conta os procedimentos de contratação, a elaboração dos projetos e todas as etapas necessárias, percebemos que o PRR acabou por ser um projeto de dois anos, ou até menos. Foi, por isso, um esforço muito grande por parte de todas as equipas: da equipa do Património Cultural, I.P., da equipa da ATL, no caso de Lisboa, das equipas das câmaras municipais, com as quais foi necessário articular as intervenções no território, e também das equipas da Museus e Monumentos de Portugal (MMP). É muito importante reconhecer o esforço e o sacrifício pessoal dos profissionais que trabalharam em museus e monumentos que encerraram ao público, mas onde foi necessário continuar a cuidar das coleções e dos espaços em plena obra. Muitas vezes, quando olhamos para estas intervenções, pensamos sobretudo nos responsáveis pela gestão das obras, mas esquecemo-nos de quem permaneceu no terreno e teve de assegurar esse trabalho em condições particularmente exigentes.
O PRR já terminou, mas alguns museus ainda estão encerrados. Quais os museus que ainda não reabriram e porquê?
O PRR contemplou intervenções em cerca de 36 equipamentos culturais. Alguns já reabriram, enquanto outros permanecem encerrados por ainda estarem a concluir os trabalhos, sobretudo ao nível da museografia. É o caso do Museu Nacional de Arte Antiga, do Museu de Lamego e do Museu do Azulejo. De um modo geral, os equipamentos que ainda não reabriram estão a finalizar os trabalhos relacionados com a museografia e a montagem das exposições. O único que não reabrirá no âmbito destas intervenções do PRR é o Museu Nacional de Arqueologia, mas essa situação já era conhecida desde o início.
Reabrirá em 2030?
Temos, naturalmente, uma data ambicionada para a reabertura: 2030. Se tudo correr bem, e tendo em conta todas as questões relacionadas com a contratação e as respetivas dinâmicas, em princípio será em 2023, conseguindo nós levar tudo a cabo como deve ser.
O MNAA reabre no dia 21 de novembro. Que avanços há no projeto de expansão do museu após a aquisição de dois imóveis e um terreno na Avenida 24 de julho no ano passado?
Sobre o MNAA, o foco está agora na sua reabertura, não existindo para já novidades a anunciar relativas ao projeto de expansão.
O projeto de ampliação do Museu do Chiado, que ficou na gaveta em 2024 por falta de verba, poderá vir a ser retomado?
Quanto ao MNAC, o que podemos avançar neste momento é que o projeto de renovação e ampliação será retomado por fases.
Estão à procura de uma nova casa para o Museu Nacional do Traje. Quais são as localizações em estudo?
Está-se a trabalhar nesse sentido. No entanto, o compromisso é a senhora ministra da Cultura anunciar a localização do Museu Nacional do Traje. No debate setorial, a ministra adiantou que esse anúncio seria feito até ao final do ano. Portanto, até ao final do ano saberemos para onde vai o Museu Nacional do Traje.
A nova localização será temporária, a ideia é regressar ao Palácio Angeja-Palmela, ou será uma localização definitiva
Em princípio, estamos a trabalhar no sentido de garantir estabilidade. Todo o esforço e investimento necessários à transferência de uma coleção tão vasta e frágil, bem como de toda uma equipa, para outro espaço, terão como objetivo assegurar essa estabilidade. E essa estabilidade é algo de que já beneficiam. Naturalmente, nada é definitivo, mas estamos a trabalhar no sentido de encontrar uma solução mais segura.
E quando reabrirá o Museu Nacional do Azulejo?
O Museu Nacional do Azulejo deverá reabrir no início do próximo ano, uma vez que as obras já estão concluídas. Estamos agora a trabalhar na renovação da entrada e da loja, num investimento destinado a melhorar o primeiro impacto de quem visita o museu.
Era um dos museus mais visitados de Lisboa antes do encerramento. Vai recuperar o lugar?
Sim, acreditamos que sim. No universo da Museus e Monumentos de Portugal (MMP), é o museu mais visitado. Temos vários monumentos com números de visitantes superiores, mas, entre os museus, é, de facto, o mais visitado. Já recebemos, aliás, vários pedidos de parceiros, pelo que acreditamos que será um museu capaz de recuperar a sua atividade com bastante rapidez. É natural que haja um período de adaptação, até que o público se habitue à ideia de que o museu voltou a abrir. Mas acreditamos que essa recuperação será muito rápida. A experiência de outros equipamentos que estiveram encerrados durante períodos semelhantes mostra-nos que praticamente todos estão a retomar a sua atividade e a regressar aos níveis de visitação anteriores.

Quais são nesta altura os maiores investimentos em curso? A renovação do Palácio Burnay?
Sim, a renovação da sede, no Palácio Burnay, temos também neste momento o ProMuseus especial na sequência das calamidades, que é uma série de investimentos para todos os equipamentos que sofreram danos no âmbitovda Kristin e todas as outras calamidades que se seguiram. Isto em termos de investimentos nos espaços físicos. Temos também um grande projeto de financiamento para a área da mediação, que vai muito além dos serviços educativos. Quando falamos de mediação, referimo-nos a todo o trabalho de construção de narrativas, de interpretação dos espaços e de relação com o público, nas suas diferentes vertentes.
Foram feitas reparações de emergência, portanto serão intervenções mais profundas?
Sim, por exemplo, no Mosteiro da Batalha, inaugurámos há duas semanas as Capelas Imperfeitas, mas mantém-se um perímetro de segurança em torno do edifício. As intempéries provocaram danos em vários elementos da estrutura, nomeadamente nas gárgulas e nas esculturas que se encontram sobre as platibandas. Algumas caíram e outras foram retiradas por risco de queda. As que permanecem no local terão de ser consolidadas. Embora algumas destas estruturas sejam atualmente consideradas seguras, optámos, por precaução, por manter o perímetro de segurança. É toda essa intervenção de consolidação e reparação que será agora necessário realizar.
Qual é o financiamento previsto e quais são os projetos maiores?
O financiamento envolvido são oito milhões de euros para as obras. Entre os projetos de maior dimensão estão alguns dos equipamentos da MMP, nomeadamente o Palácio Nacional de Mafra, o Mosteiro da Batalha, o Museu Nacional Machado de Castro e o Convento de Cristo, em Tomar. São monumentos que se encontravam precisamente no eixo da tempestade e que, por isso, sofreram danos significativos. As intervenções prioritárias já foram realizadas. Outras irão prolongar-se até ao final deste ano e, se tudo correr bem, algumas deverão ficar concluídas até meados do próximo ano.
Em relação ao Palácio Burnay, qual é o ponto de situação neste momento?
Trata-se de uma obra complexa, porque estamos a falar de três áreas distintas no Palácio Burnay. A primeira é o palácio propriamente dito, que foi profundamente vandalizado. Foi uma situação extrema de destruição do património, que já foi estancada. Estamos agora a trabalhar na sua reabilitação, um processo que exigirá um investimento a médio prazo, dada a complexidade da intervenção e a diversidade de conhecimentos especializados necessários, desde a pintura mural e a pintura de cavalete até às madeiras e a outras áreas de conservação e restauro. Depois, temos um conjunto de edifícios mais modernos, que irão acolher a sede da Museus e Monumentos de Portugal (MMP). Esta será, provavelmente, a área cuja conclusão será mais rápida.
Quando preveem ocupar a nova sede?
É sempre difícil avançar com datas, porque existe o risco de as pessoas ficarem demasiado fixadas nos prazos anunciados. Temos de ter em conta que se trata de concursos de contratação pública e que há uma série de procedimentos que podem não correr como previsto. Ainda assim, se tudo correr bem, contamos que, em 2028, as primeiras equipas possam mudar-se para o Palácio Burnay. Há ainda uma terceira área de intervenção, que deverá decorrer em simultâneo com esta: a dos auditórios. Optámos por manter os vários auditórios existentes no palácio, tendo em conta que a formação é um dos eixos fundamentais da nossa visão para a empresa. Queremos, assim, assegurar espaços destinados tanto à formação interna como à formação dirigida ao exterior.
E o orçamento mantém-se igual nos 15,8 milhões de euros?
Sim, este orçamento mantém-se igual. Depois, eventualmente, terá haver um reforço por via de receita própria, mas o orçamento mantém-se igual.
Assumiu funções em junho de 2024. A MMP tinha sido criada há pouco tempo e não é segredo que não foi um processo fácil. Passados estes dois anos de mandato, como é que avalia nesta altura a situação na MMP?
Tendo em conta as circunstâncias em que tudo começou, acho que chegámos a um ponto de grande estabilidade. A estrutura está consolidada e conseguimos assegurar tudo aquilo que tínhamos em mãos. Mas, mais uma vez, o mérito é de todas as equipas que nos acompanham. Houve um grande esforço de muitas pessoas que acreditaram neste projeto, que é inovador na área da cultura e nunca tinha sido experimentado. Houve muitas críticas, sobretudo no início, mas acreditámos no projeto e penso que hoje é evidente que, apesar de um arranque conturbado e dos desafios acrescidos que o PRR trouxe à gestão, a empresa está consolidada.
Até onde pode chegar a autonomia dos museus, monumentos e palácios neste modelo?
Estamos a trabalhar no sentido de dar cada vez mais autonomia aos nossos equipamentos, embora essa autonomia nunca possa ser total. Será possível avançar nesse sentido à medida que consolidarmos as nossas receitas e estabilizarmos uma série de processos. Neste momento, já existe autonomia de programação: todos os espaços sob a nossa tutela têm liberdade para definir a sua programação e dispõem de uma verba para atividades relacionadas com exposições e outras iniciativas que pretendam desenvolver. Gradualmente, queremos alargar essa autonomia a outros tipos de procedimentos.
Não chegará ao ponto de cada entidade ter um número de contribuinte próprio?
Não, porque se tivessem um número de contribuinte próprio, nós não seríamos uma entidade e teriam que existir 37 entidades. Não pode ser, até porque, do ponto de vista financeiro, representaria uma sobrecarga para o Estado. Ao existir uma entidade responsável por assegurar toda a gestão transversal, desde os pagamentos da água e da eletricidade aos serviços de segurança e aos seguros, é possível obter custos mais baixos e negociar melhores condições do que se cada um dos 37 espaços tivesse de tratar destas despesas individualmente. Além disso, se cada espaço tivesse de assumir todas estas responsabilidades, precisaria de equipas maiores e de estruturas administrativas reforçadas, com mais profissionais especializados em áreas como o direito, a administração e a contratação pública. Seria uma solução financeiramente incomportável.
Uma das suas prioridades foi lançar os concursos e agilizar a contratação dos diretores dos museus. O modelo de recrutamento ainda pode ser mais afinado?
Sim, o processo será melhorado. Há uma série de aspetos que procuraremos rever na próxima abertura de concursos, com o objetivo de tornar os procedimentos de recrutamento mais ágeis. Ainda estamos a trabalhar nesse sentido, mas a experiência anterior permitiu-nos identificar aspetos que podem ser simplificados e estamos a desenvolver soluções para esse efeito.

“Se estivéssemos sujeitos às regras de contratação da função pública caminharíamos para a extinção”
A falta de pessoal continua a ser um problema nos museus monumentos e palácios geridos pela MMP?
Quando iniciámos funções, em janeiro de 2024, éramos 984 pessoas. Sabíamos que cerca de 300 tinham entre 60 e 70 anos. Se estivéssemos sujeitos às regras de contratação da função pública, caminharíamos para a extinção. E essa é uma das razões porque privilegio muito a solução da Museus e Monumentos de Portugal (MMP): permitiu-nos, de facto, renovar as equipas. Atualmente, somos 1161 pessoas. Naturalmente, não podemos abrir vagas indiscriminadamente. A contratação depende sempre da autorização do Ministério das Finanças, que tem de aprovar a abertura de lugares nos quadros. Ainda assim, este processo tem permitido renovar os nossos profissionais e contratar pessoas com elevada preparação nas áreas em que queremos investir, nomeadamente a conservação e o restauro, a mediação cultural, os serviços educativos e as acessibilidades. Procuramos recrutar os melhores profissionais disponíveis no mercado para cada uma destas áreas. O nosso objetivo é, caso tenhamos autorização do Ministério das Finanças, chegar aos 1250 trabalhadores até 2028.
Vão sair cerca de uma centena de pessoas nos próximos dois anos?
Vão sair mais. E têm saído muitas. A questão é que, com este modelo, quando há aposentações ou quando as pessoas pedem transferência para outro serviço e consolidam a sua posição fora da MMP, podemos contratar de imediato, e é isso que temos feito. Ou seja, a renovação das equipas não se deve apenas à autorização para abrir novos lugares nos quadros. Também podemos contratar de imediato quando as pessoas se aposentam ou saem da estrutura. Temos ainda outra vantagem, que no passado era muito difícil de concretizar: podemos fazer contratos a termo para áreas-chave, nomeadamente para os laboratórios, como o José de Figueiredo, e para as áreas de conservação e restauro. Os diretores dizem-nos que determinado profissional se vai aposentar nesse ano e que é uma pessoa fundamental pelo conhecimento que tem. O que fazemos, então, é contratar alguém a termo que possa acompanhar esse profissional, para que, quando se aposentar, já tenha transmitido o seu conhecimento a quem o vai substituir. Isso não era possível no modelo anterior.
Isso é muito importante na área da conservação e restauro. Perdeu-se muito conhecimento nos últimos anos?
Tive o privilégio de trabalhar no Laboratório José de Figueiredo há alguns anos e assisti à saída de pessoas de algumas áreas sem que tivessem conseguido transmitir o seu conhecimento. Há uma área específica que vai ser muito difícil recuperar, porque os técnicos que lá trabalhavam saíram sem terem conseguido transmitir aquilo que sabiam.
Qual é a área
Chama-se ‘marcenaria especializada’. É uma área ligada à reentelagem de telas e a todo um trabalho específico relacionado com estruturas de madeira, quer em telas, quer em imóveis, entre outras. Essa área ficou sem ninguém. Ou seja, quando os técnicos saíram, não houve transmissão de conhecimento. As pessoas não têm noção de que, na área dos museus e do património, temos profissionais altamente especializados, com uma formação muito sólida e profunda. A saída destas pessoas representa uma perda quando o seu conhecimento não é transmitido, porque não estamos a falar apenas do património material. Há também todo um legado imaterial de conhecimento, acumulado ao longo de anos, que se perde quando as pessoas saem. E esse é também um problema que estamos a tentar evitar. Ao procurarmos ter alguém a acompanhar os profissionais que estão de saída, tentamos garantir a continuidade desse conhecimento, algo que até agora não estava assegurado.
Que importância teve, para a paz social na MMP, o acordo alcançado com os sindicatos em abril, que estabeleceu um complemento de 60 euros pelo trabalho em dias feriados?
Esse acordo foi fundamental para conseguirmos ter estabilidade. Resultou da necessidade de valorizar o trabalho e o sacrifício dos nossos trabalhadores, que asseguram a abertura dos nossos equipamentos em dias feriados. Houve esse entendimento por parte da Ministra da Cultura e da Secretaria de Estado da Administração Pública, de que fazia todo o sentido valorizar esses dias de trabalho, tendo sido estabelecido um complemento de 60 euros. Conseguimos, assim, chegar a um acordo com os sindicatos num prazo relativamente curto, encontrando uma solução que permitisse responder a essa necessidade de valorização. Os sindicatos queriam uma valorização dos trabalhadores, e nós também, porque estamos conscientes desse sacrifício e desse esforço dos nossos colegas.
Em relação ao número de visitantes deste ano no universo MMP, a meta é de 4,2 milhões. Vai ser alcançada
Ainda não temos dados seguros. Porquê? Porque ainda estamos a abrir equipamentos. Tendo em conta os números de que dispomos atualmente, tudo indica que poderemos chegar muito próximo desse valor ou até, eventualmente, ultrapassá-lo. Mas ainda é prematuro avançar com uma conclusão, porque temos vários equipamentos por abrir. Houve dois fatores fundamentais que tiveram impacto nos números. Por um lado, o PRR, que obrigou ao encerramento de vários equipamentos. Alguns conseguiram manter parte das suas áreas abertas, outros não. Por outro, as tempestades tiveram também um impacto significativo. Durante aqueles dois meses, com a Kristin e toda essa sequência de tempestades, vários dos nossos equipamentos sofreram danos e tiveram de encerrar. Foi o caso de equipamentos importantes, como o Convento de Cristo, em Tomar, e o Mosteiro da Batalha, o que implicou, naturalmente, uma quebra no número de visitas.
A maioria dos visitantes são turistas estrangeiros?
A maioria dos nossos visitantes são turistas. Perto de 900 mil são residentes em Portugal.
O Acesso 52 aumentou a dependência da MMP das receitas provenientes dos visitantes estrangeiros? Como avalia este modelo de gratuitidade, que está agora a ser revisto na sequência das exigências da Comissão Europeia
Entendemos que temos também uma função de serviço público. Fala-se muito do Acesso 52 como se fosse a única modalidade de gratuitidade, mas, na realidade, temos outras gratuidades que representam um valor apreciável e que consideramos fazer todo o sentido manter. É o caso das escolas e dos seniores, entre outros públicos. Há uma série de gratuidades previstas nas condições de entrada dos nossos equipamentos, que as pessoas podem usufruir. O Acesso 52 acaba por ser, no fundo, uma modalidade de gratuitidade que já existia, mas que passou a estar distribuída pelos vários dias da semana. Vamos, por isso, aguardar para ver qual será a solução apresentada no futuro.
Não considera que esse modelo de gratuitidade torna os museus, monumentos e palácios muito dependentes do turismo em termos de receita
Não, o problema é até o contrário. Temos de investir na captação de público nacional, essa é que é a grande questão. Se tivermos uma situação como a da pandemia de covid-19, que provoque uma quebra acentuada do turismo, ficamos numa situação de grande vulnerabilidade em termos da sustentabilidade de toda a estrutura. Por isso, queremos trabalhar para atrair o público nacional e, ao mesmo tempo, procurar outras fontes de financiamento para os nossos museus, através de atividades como o desenvolvimento das nossas lojas, a criação de produtos próprios e o aluguer de espaços.
Diversificar as fontes de receita para não dependerem tanto da bilhética
Exatamente. E também investir mais na mediação cultural e nos serviços educativos, que são muito mais do que aquilo que o nome sugere. O objetivo é atrair a população e os públicos nacionais aos nossos museus e torná-los espaços que as pessoas tenham por hábito visitar, para ver novidades, participar em atividades e vivê-los como espaços de experiência. Queremos, assim, tentar equilibrar a dependência em relação ao turismo, atraindo mais público nacional.
Mas em relação ao acesso, é defensor de algum modelo em particular? Gostava que as alterações fossem em que sentido? A MMP também está envolvida nesse processo?
Sim, também estamos a participar nesse processo. Entendemos que tem de haver um momento de gratuitidade, até para atrair as pessoas aos museus. Mas continuo a dizer que já temos uma oferta alargada de gratuitidade. De qualquer forma, a possibilidade de uma família ter um período para visitar gratuitamente um museu também está no nosso horizonte. Vamos, por isso, aguardar para ver qual será a solução a adotar.
Essas novas regras terão de ser aplicadas a todos os cidadãos da União Europeia…
A todos, exatamente. Ou seja, o regime de gratuitidade total, de isenção de pagamento, tem de ser extensivo a todos os cidadãos da União Europeia. Essa é a questão que tem de ser agora ponderada: como é que isso vai ser feito.
Quando é que prevê que este novo modelo entre em vigor?
São negociações que estão a ser conduzidas interministerialmente com a União Europeia. O processo está agora numa fase de trabalho mais acelerada. A informação de que dispomos, que penso ser também pública, é que esta questão ficará resolvida até meados do próximo ano, ou seja, até ao verão. Portanto, o processo está já numa fase mais avançada.
A Torre de Belém reabriu com o modelo de entradas controladas, tal como já existia no Mosteiro dos Jerónimos. Qual tem sido o impacto ao nível da receita
O impacto na receita não é significativo, mas também é importante dizer que não pensamos apenas na receita. O controlo das entradas tem dois objetivos. Um deles é proporcionar uma experiência digna e agradável aos visitantes. Não queremos voltar ao modelo anterior, em que as pessoas faziam filas enormes, ao sol e à chuva, à espera de entrar nos nossos espaços. O sistema de slots, ou seja, de entradas por períodos pré-determinados, permite aos visitantes gerir melhor o seu tempo e organizar a visita para entrarem no horário previsto. O outro objetivo é garantir a sustentabilidade dos espaços. Não podemos pensar apenas em maximizar as receitas ou o número de entradas, sem ter em conta as consequências para a conservação e a manutenção dos monumentos. Estamos, por isso, a tentar garantir que o número de pessoas que entra respeita os limites de sustentabilidade definidos para cada espaço e a sua capacidade de receber visitantes diariamente. Temos de pensar na sustentabilidade a longo prazo. Não podemos receber hoje estes monumentos, querer tirar deles o máximo proveito em termos de receitas e esquecer que são património que tem de ser preservado ao longo do tempo.
E será aplicado noutros equipamentos?
Será aplicado em todos os equipamentos que tenham uma procura que seja acima daquilo que é entendido como a sua sustentabilidade.
Qual poderá ser o próximo?
Eventualmente, tendo em conta o número de visitantes, talvez o Museu Nacional do Azulejo.
A meta de receita própria para este ano é de 28,9 milhões de euros, 24 milhões dos quais de bilhética. Esse objetivo vai ser atingido?
Continuo a dizer que ainda é prematuro avançar com uma conclusão. Ainda temos espaços para abrir e estamos neste momento a abrir alguns. Por isso, não podemos afirmá-lo categoricamente, mas, em princípio, sim: vamos conseguir atingir o valor a que nos tínhamos proposto para este ano.

O objetivo continua a ser, como está no vosso Plano de Atividades e Orçamento, que em 2030 as receitas próprias sejam equivalentes ao montante da indemnização compensatória
O nosso objetivo será até ultrapassar o valor da indemnização compensatória em receitas próprias. Esse será o nosso grande objetivo, porque nos permitirá reinvestir nos espaços. Como dissemos no início, houve um grande investimento nas obras financiadas pelo PRR, mas, a partir de agora, temos também a responsabilidade de assegurar a manutenção dos edifícios. Além disso, queremos intervir em todos os edifícios ou áreas que ficaram para trás, trabalhando para que tudo fique renovado e restaurado. Queremos até conseguir abrir ao público áreas que não estavam inicialmente previstas para esse fim. O PRR vai permitir isso no Palácio Nacional da Ajuda, onde serão abertas salas que não eram conhecidas e que passarão a estar disponíveis para o público. Também no Palácio dos Biscainhos, em Braga, será possível abrir várias salas até agora desconhecidas dos visitantes. O objetivo é, portanto, tornar estes espaços mais acessíveis, disponibilizando mais áreas ao público.
Vão ter um aumento da indemnização compensatória em 2027?
O Orçamento, o que prevê, é manter o mesmo valor da indemnização compensatória, de 34,9 milhões de euros.
Mas gostaria que tivesse havido um aumento?
Todo o dinheiro que chegar será bem-vindo para o nosso investimento. Mas isto coloca-nos também o desafio de conseguirmos, através das nossas próprias estratégias e do nosso trabalho, gerar as receitas de que necessitamos.
Qual é a estratégia para aumentar a receita própria
A estratégia passa, para além da bilhética, que é a fonte de receita habitual, pelo investimento que estamos a fazer nas lojas, com uma visão diferente daquilo que queremos oferecer nos nossos espaços. Temos também as cafetarias, um processo que começaremos a desenvolver a partir do próximo ano, e o aluguer de espaços. Queremos fomentar cada vez mais a possibilidade de alugar espaços nos nossos museus. Estamos também a diversificar as atividades, que serão fundamentais para gerar receitas, assim como os mecenatos, destinados a financiar projetos muito específicos em alguns dos nossos equipamentos.
Vai haver alterações ao nível do preços das entradas?
Se houver alterações, serão muito cirúrgicas, incidindo apenas sobre um ou outro aspeto. Isto também se relaciona com o que acabei de dizer: há preços de bilhetes que foram definidos numa altura em que não estava prevista a oferta que alguns destes espaços têm agora. A ampliação das áreas disponíveis para visita permite melhorar a experiência e a qualidade da visita e pode, eventualmente, justificar uma atualização dos preços dos bilhetes. Mas, em princípio, essas alterações serão muito pontuais.
Falando agora na segurança. Há notícias recorrentes sobre roubos em museus, mesmo nos maiores do mundo. Os 37 equipamentos da MMP estão devidamente protegidos contra furtos?
Houve um investimento por parte do PRR, parte do qual foi feito nesse sentido, e estamos a reforçar e a trabalhar nos nossos equipamentos para melhorar tudo o que diz respeito à segurança, incluindo ao nível dos recursos humanos.
O que estão a fazer em concreto?
Estamos a trabalhar em termos de ações de formação, mas também em termos de reforço de equipamentos de segurança.
Ou seja, em tecnologia
Tecnologia, sim, temos investido e para o ano vamos ter mais investimento. A videovigilância é talvez a medida mais visível, mas temos outros sistemas de segurança que também queremos desenvolver e reforçar.
Preparar os monumentos para serem mais resilientes face às alterações climáticas é uma preocupação?
É uma preocupação e uma área em que estamos a agir. A questão das alterações climáticas e dos riscos associados é cada vez mais importante. Aliás, o chamado comboio de tempestades do ano passado alertou-nos para a vulnerabilidade dos nossos equipamentos culturais, não apenas dos que estão sob gestão da MMP, mas de todos os equipamentos culturais. Percebemos que o que aconteceu não foi um fenómeno isolado e que é provável que voltemos a assistir a situações deste tipo. Temos, por isso, de consolidar estratégias que nos permitam preparar para estes riscos e garantir que, todos os anos, conseguimos realizar as intervenções necessárias para proteger os nossos equipamentos.
Estamos também a fazer investimentos para reforçar as estruturas situadas em áreas vulneráveis, nomeadamente em zonas sísmicas, como Lisboa, e em locais como os nossos fortes de Peniche e Sagres, que estão sujeitos a um maior desgaste provocado pelos elementos naturais. Estamos a consolidar estas estruturas, dentro do que é possível, para garantir que ficam mais resistentes em caso de catástrofe. Por exemplo, no âmbito do PRR, foi feito um investimento fundamental, no limite daquilo que era possível, na consolidação de duas áreas de muralhas em Conímbriga que estavam em risco iminente de colapso. A intervenção permitiu estabilizá-las e garantir a sua manutenção. Em Sagres, também foi feito um investimento numa parte da muralha que circunda a Fortaleza, mas será necessário intervir na restante. Em Peniche, foi igualmente intervencionada uma parte da estrutura, embora seja necessário continuar a investir.
A questão sísmica é também muito importante. Estão a ser realizados estudos para avaliar os riscos a que alguns dos nossos edifícios podem estar sujeitos em caso de catástrofes deste tipo.
Como está o processo de transferência de museus da esfera da MMP para os municípios?
São três. Havia três equipamentos cuja transferência para os municípios estava prevista. Um deles, o Museu Joaquim Manso, na Nazaré, está praticamente finalizado e foi inaugurado há cerca de um mês. Negociámos com o município e o processo está praticamente fechado. Portanto, esse museu vai sair do universo da MMP. Não se trata de uma decisão nossa, mas de uma decisão que já tinha sido tomada antes da criação da empresa. O processo de transferência do Museu da Guarda também está praticamente concluído. Falta apenas um ajuste relacionado com a negociação financeira. No entanto, o pessoal e o museu nunca chegaram a integrar a nossa esfera, uma vez que já estavam sob a gestão do município. Resta o Museu de Cerâmica, cuja transferência estamos neste momento a negociar com a Câmara Municipal das Caldas da Rainha.
E poderiam ser transferidos mais?
Houve, inicialmente, alguma polémica sobre se outros equipamentos não deveriam ter sido transferidos. Estou a pensar no Museu da Terra de Miranda, que inaugurámos este fim de semana, no Palácio dos Biscainhos, no Museu D. Diogo de Sousa e no Museu Abade de Baçal. Falou-se dessa possibilidade, mas ela acabou por não ficar consagrada no Diário da República aquando da criação da MMP.
Mas em sua opinião fazia sentido haver mais transferências?
Não. Aquilo que temos neste momento, nesta estrutura, são equipamentos que, em alguns casos, ainda precisam de algum trabalho, mas que já têm uma identidade própria e são complementares. Quando olhamos para este panorama, para este mapa, percebemos que há possibilidades. Criámos um diálogo e uma dinâmica entre todos estes museus, com os nossos diretores e as suas equipas. Não queria especificar nenhum, porque depois parece que estou a falar de uns em detrimento dos outros. Mas temos, de facto, um universo que podemos imaginar como uma joia, com uma série de pedras em que cada uma contribui para o todo. Não se repetem, não são duas faces da mesma moeda: são coisas diferentes. É esse o trabalho que estamos a desenvolver. Estamos a tentar lapidar melhor esta peça, definir melhor o seu sentido, a sua lógica e a sua identidade. Isso permite-nos ter 37 equipamentos completamente diversos e uma oferta que vai desde grandes palácios a palácios mais pequenos, passando por um enorme espaço arqueológico, uma cidade ainda por descobrir, museus nacionais, com lógicas muito diferentes, e museus que não são nacionais, mais ligados ao território. Temos, portanto, um universo suficientemente rico para oferecer ao público e para garantir que todos estes equipamentos contribuem para a nossa memória coletiva. A sua justaposição conta a história do nosso país e da nossa identidade.
O seu mandato como presidente da MMP termina no final deste ano. Gostaria de continuar?
A decisão não me compete, é uma decisão superior. Agora, estamos aqui com um projeto que é de facto um projeto muito aliciante, um projeto extraordinário. É um desafio diário para todos nós levar avante esta missão.
Quais serão as suas prioridades em caso de um novo mandato?
Pensando num horizonte de mais três anos, a prioridade seria consolidar todos os equipamentos e reabrir o Museu Nacional de Arqueologia. Queremos também avançar com a extensão do Museu Nacional de Arte Antiga, um projeto que está em cima da mesa, e com a renovação do Museu do Chiado, outro processo que estamos a desenvolver. A isto junta-se a transferência da sede para o Palácio Burnay, concretizando assim a sua instalação naquele espaço. Para três anos, são muitas ambições.
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