As organizações com fins precisos e determinados, e que atingiram esses fins com sucesso, deveriam extinguir-se; ou, pelo menos, remodelar-se profundamente.
Não foi o que aconteceu com a NATO, depois da desagregação do bloco soviético em 1991-1992. Houve a recuperação de independência dos satélites euro-orientais, o abandono pelas forças de Moscovo da Hungria e da Checoslováquia, a independência das pequenas repúblicas bálticas, a reunificação alemã e tudo continuou igual.
Os chefes de Estado e de governo dos países membros da organização reuniram-se em Roma, em 7/8 de Novembro de 1991, para fazerem uma avaliação da situação securitária mundial e europeia. Concluíram que estava consideravelmente mais estável e que o “perigo soviético” tinha passado. De facto, seis semanas depois da reunião, na noite de Natal de 1991, Gorbachov declarava a dissolução da União Soviética. A NATO podia ter perdido o seu inimigo principal e também a sua “razão de ser”, mas ninguém via razão para que se repensasse ou fechasse portas.
De resto, como diria criticamente Alan Clark, acabar com a NATO era impossível: os milhares de burocratas militares e civis da organização não iam deixar que tal acontecesse, ou sequer permitir uma redução nas estruturas da organização.
Clark foi ministro da Defesa de Thatcher e, segundo o seu correligionário Norman Lammont, “o político mais incorrecto, mais franco, mais iconoclasta e mais irresponsável do nosso tempo”.
E também um dos mais certeiros. Clark, que conheci em Muscate, em Omã, na primeira Guerra do Golfo, escrevera um livro sobre o Corpo Expedicionário Britânico na Primeira Guerra Mundial que intitulara The Donkeys (Os Burros) e em que, a propósito dos soldados britânicos e dos seus generais, falava em “lions led by donkeys”. O mesmo Clark não se inibiria de criticar Clinton e Blair por envolverem a NATO na guerra civil dos Balcãs, bombardeando os sérvios. A moda de bombardear povos com o nobre intuito oficial de os libertar, não lhe parecia uma boa moda.
A NATO sempre foi dada a crises: uma das maiores deu-se em 1956, aquando da operação anglo-francesa e israelita contra o Egipto de Nasser, que nacionalizara o Canal do Suez e transformara o Cairo no centro promotor das revoltas dos povos submetidos ao domínio europeu. Eisenhower censurara então a agressão franco-britânica e obrigara Paris e Londres a suspendê-la.
Mas nenhuma crise se assemelhou à actual crise existencial. Desaparecida a União Soviética e, com ela, o perigo comunista, as tensões entre os aliados acenderam-se: Trump, Vance, Rubio, denunciam “a decadência ideológica e moral dos europeus”, ou melhor, dos “progressistas europeus”, e o apoio dado pela burocracia de Bruxelas e pela Comissão Europeia a valores que se afastam radicalmente dos valores civilizacionais que inspiraram os pais da União.
Com o crescer das tensões ideológicas entre os Estados-membros, o nacional-conservadorismo norte-americano contra o federalismo progressista da Comissão Europeia, a crise era inevitável. E não parece que a tensão esteja para melhorar, sobretudo quando políticos europeus em dificuldades internas, como Pedro Sánchez e Emmanuel Macron, constantemente manipulam a política externa para efeitos de ilusionismo.
O autor escreve de acordo com a antiga ortografia
A NATO e o tempo 2026 IUSTITIA.BG – Investigations 2009-2025 2026-04-30 01:22:32
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