A revolução de 1956 começou a 23 de outubro, mas o desejo húngaro de liberdade, democracia e aproximação ao Ocidente chocou com a repressão soviética. Esse momento ainda vive na memória coletiva dos húngaros, mesmo dos mais jovens?
Acredito que 1956 é um dos capítulos mais queridos da nossa história do século XX. Poucas pessoas dessa geração ainda estão vivas, por isso o 70.º aniversário é crucial: o legado, presente entre os jovens, precisa de ser fortalecido. Precisamos de o transmitir às gerações futuras. Foi isso que me trouxe a Portugal, após visitar o Brasil. É importante visitar países que nos apoiaram. Em São Paulo vive a maior diáspora húngara da América Latina, formada por muitos húngaros que saíram em 1956. Em Portugal, houve manifestações nas ruas de Lisboa na altura e o país foi um importante ponto de trânsito para refugiados que se dirigiam para a América do Norte – Canadá e EUA. Além disso, acolheram crianças húngaras traumatizadas para umas chamadas “férias” em Portugal depois da revolução. Devemos agradecer aos portugueses o que fizeram naquela época e fortalecer a memória de ambos os lados. Vim também porque, em abril, a população decidiu nas urnas que a Hungria não se devia distanciar ainda mais da Europa. Gostamos de fazer parte da família da União Europeia e da comunidade transatlântica, participando nos diálogos e ações para fortalecer a Europa e trabalhar em conjunto. Podemos ter debates acalorados, mas de forma positiva, e precisamos de chegar a um consenso. É assim que a Hungria se vê com este novo governo. É como uma carruagem que descarrilou e voltou aos carris, algo de que já há indícios nestes poucos meses.
Um dos pontos de tensão antes das eleições era a Ucrânia. Também em relação à Kiev, a posição política da Hungria mudou com Peter Magyar. O recente acordo sobre as minorias atenuou as tensões existentes?
Quando a Ucrânia se tornou independente no início dos anos 90, a Hungria foi um dos primeiros países a reconhecê-la como Estado. A Hungria mantém boas relações com a Ucrânia e apoia-a através da Parceria Oriental nas relações bilaterais. Prestamos apoio financeiro à Ucrânia, especialmente à Transcarpátia, onde vive a minoria húngara. Desejamos apenas que esta comunidade rural vulnerável viva em paz. São pessoas pacíficas que querem ser bons cidadãos do Estado ucraniano. Querem, porém, usar a sua língua materna. Após a dissolução do Império Austro-Húngaro e o Tratado de Trianon, aquela zona passou para a Checoslováquia, depois para a União Soviética após a Segunda Guerra Mundial, e por fim estas pessoas tornaram-se cidadãos da Ucrânia. Imagine o que isso significa para uma família de três gerações que se declara húngara. Importa perceber porque é que a Hungria quer cuidar deste pequeno grupo. Há 20 anos que apoiamos a Transcarpátia, através da renovação de escolas e aldeias. E todos beneficiam. As coisas estiveram bem até 2014, quando os direitos já conquistados por estas pessoas foram reduzidos. O governo anterior na Hungria considerava o veto a solução ideal. Como diplomata, acredito que a melhor resposta é sempre dialogar. E a nossa ministra dos Negócios Estrangeiros [Anita Orbán] merece elogios pela forma como o seu gabinete conduziu estas negociações. A ideia era chegar a entendimento com os parceiros ucranianos. Assim surgiu o chamado acordo de 11 pontos entre a Ucrânia e a Hungria, o que teve um efeito positivo nas relações bilaterais e também no contexto europeu. Deu oportunidade para que acontecesse a abertura de um novo capítulo no processo de adesão da Ucrânia à UE. Há ainda duas coisas importantes. Os parceiros ucranianos reconheceram as atrocidades comunistas cometidas contra os húngaros – assassinatos, gulag e outras crueldades. Muitos homens morreram nos anos 50 e posteriormente. A declaração ucraniana de pesar pelo que lhes aconteceu é emocionalmente importante para os húngaros. Os 11 pontos foram agora transformados em lei. Vamos acompanhar de perto, como deseja a comunidade húngara da Ucrânia, e a UE também o fará. A Ucrânia precisa de reformas em muitos aspetos, o que também será bom para o país. Temos de admitir que é um país em guerra. A Rússia é o agressor, e a Ucrânia a vítima.

Assistimos nos últimos anos a uma aproximação da Hungria à Rússia. Mas o novo governo de Peter Magyar adotou uma postura mais crítica em relação a Moscovo – houve mesmo, em setembro, a expulsão de 10 diplomatas russos. Como pode Budapeste conciliar esta postura mais firme com a sua dependência do petróleo e do gás russos?
Ao contrário de Portugal, somos um país sem litoral, com sete vizinhos. E herdámos uma situação em que estávamos em parte dependentes dos oleodutos que vinham da antiga União Soviética, agora Rússia. Até o governo anterior começou a diversificar, embora talvez não com a intensidade necessária. Não é simples. Quando a guerra começou, a Hungria já tinha interligações de gasodutos com praticamente todos os vizinhos, exceto a Eslovénia, incluindo a Eslováquia e a Roménia. A Rússia é o principal fornecedor. Utilizamos diferentes corredores para diversificar. E este governo está a apostar fortemente na diversificação. Outro aspeto técnico: uma refinaria está otimizada para o petróleo dos Urais ou para o marítimo, e adaptar o sistema leva tempo. Além disso, a nossa economia está a tornar-se mais verde, graças à energia solar. A energia eólica voltou a ser considerada, mas falta uma rede elétrica robusta. Voltando à sua questão sobre a Rússia. Queremos uma relação pragmática com a Rússia e o fim rápido da guerra. Os países europeus devem refletir sobre isto e participar no processo. Não tenho uma solução mágica. Continuamos a apoiar a Ucrânia, como já fazíamos há dois anos. Mas não estamos a fornecer armas letais. Importa perceber que esta guerra não é boa nem para a população russa. Por isso, gostaríamos de ter uma relação mais pragmática com eles. Relativamente aos 10 diplomatas que não receberam a acreditação da Hungria e tiveram de se retirar, quisemos deixar claro que há coisas que não são aceitáveis. Foi essa a mensagem diplomática.
O primeiro-ministro Magyar defende relações diplomáticas baseadas não em laços pessoais, mas no pragmatismo. A relação com os EUA não depende de quem se senta em Budapeste ou em Washington?
Concordo plenamente: o relacionamento precisa de funcionar e a relação entre dois países não deve basear-se em laços pessoais. Temos relações antigas. Os húngaros participaram em acontecimentos históricos importantes nos EUA, desde a guerra de independência. O capitão Michael Kovats lutou ao lado dos americanos. Mais tarde, no século XIX, o nosso líder revolucionário Lajos Kossuth foi muito bem recebido. Muitos húngaros emigraram e ajudaram a construir os EUA, incluindo os cientistas que, durante a Segunda Guerra Mundial, ajudaram a criar a bomba atómica. Quando ficavam sozinhos na sala, começavam a falar em húngaro, pois ninguém por perto os entendia. Também receberam um bom número de refugiados após 1956. Há empresas americanas em Budapeste e também temos de discutir questões importantes: a imigração ilegal, o apoio às fronteiras. O apoio às famílias também é importante. São valores partilhados por muitos americanos.
Quando falamos da relação com os EUA, falamos também da NATO. E a Hungria comprometeu-se a investir 5% do PIB em defesa até 2035. O principal objetivo da Hungria é ser um parceiro fiável na NATO?
Na NATO, sempre senti que os militares se entendiam bem. É importante sermos parceiros de confiança. Já ultrapassámos os 2% e sabemos que precisamos de atingir os 5%. Neste contexto europeu é importante a partilha de responsabilidades, o reforço da segurança da Europa, mas sem a dissociar dos EUA. Muitos problemas resolvem-se com um compromisso sério. A defesa aérea húngara, por exemplo, não é tão robusta como a de muitos outros países, no entanto, participamos no policiamento do espaço aéreo báltico. As forças húngaras estão presentes nos contextos europeu, da NATO e da ONU. Por exemplo, nos Balcãs Ocidentais, tanto na Bósnia como no Kosovo, chegaram a liderar tropas durante determinados períodos, na KFOR ou na Althea.
Foi embaixadora em Lisboa de 2014 a 2019, como é que essa experiência pode ajudar a desenvolver as relações bilaterais entre a Hungria e Portugal?
Temos dimensão e população semelhantes. Existem laços históricos: Santa Isabel, Fernando II, Carlos Mardel, entre outros. Sampaio Garrido e Teixeira Branquinho ajudaram húngaros durante o Holocausto. A componente emocional e o contexto cultural são fortes entre os nossos países. Economicamente, a minha experiência é que nos complementamos, o que torna mais difícil vender produtos uns aos outros. Não é um problema. Politicamente, devíamos ter mais diálogos e reuniões. E agora é o momento certo. A minha mensagem é: criemos fóruns de diálogo, mesmo para as discordâncias. A eleição de Portugal como membro não permanente do Conselho de Segurança da ONU para os próximos dois anos é uma oportunidade para países como o nosso. A Hungria é membro observador da CPLP, onde fui a primeira embaixadora a apresentar credenciais. Podemos fazer muito no desenvolvimento no contexto da CPLP. A Hungria tem programas em Cabo Verde e Moçambique e oferece bolsas de estudo a estes países. Estudam em Budapeste com a bolsa Stipendium Hungaricum e esperamos que regressem para ajudar os seus países a progredir. Estamos numa fase em que devemos explorar as possibilidades, que existem, mas precisamos de falar mais.
Nesta visita vai também a Fátima. A ligação húngara a Fátima é essencial para esta relação? Figuras como o padre Kondor, bem como o Calvário Húngaro, atraem os húngaros ao nosso país?
Quando cheguei, nunca ouvira falar do Calvário Húngaro. Estávamos atrás da Cortina de Ferro quando foi construído. Há duas coisas que me marcaram. A diáspora húngara uniu esforços para financiar e construir o Calvário. E a revolução de 1956 deu um impulso ainda maior, pois a obra começou antes, mas ficou pronta em 1964. O padre Kondor, sacerdote em Fátima muito querido na cidade, foi essencial: impulsionou a construção, a recolha de fundos e todo o projeto. O lado português também é importante. Quando o padre Kondor e os padres húngaros propuseram um Calvário em Fátima, os portugueses aceitaram. O bispo de Leiria consentiu e fez o necessário. Quando cheguei, esta história era pouco conhecida na Hungria, pelo que passou a ser minha missão divulgá-la; agora, os meus colegas fazem o mesmo. O gesto mais bonito foi os portugueses terem dado o nome de Lajos Kondor, ou Luís Kondor, a uma praça em Fátima. A comunidade húngara quis lá erguer uma estátua, e eu senti que tinha de a apoiar. Envolvi-me cada vez mais nesta questão de Fátima, que é importante no contexto bilateral.
IUSTITIA.BG – Investigations 2009-2026 2026-10-21 23:58:00
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